D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Ó Pátria Minha, Querido Monstro de Dois Corações
Memórias de um filho retinto

Ah, terra que não piso
com a sola dos pés há mais de uma década.

A culpa não é apenas da diáspora
que seduz meus sonhos
a colher frutos em campos alheios.

Tempus fugit.

Também não é só a capitalização da distância.

Engordaste.
Não da tua prole expansiva,
essa que cresce a cada gemido úmido
nas noites tropicais.

Engordaste
da normalização do ignóbil,
da finesse casta
que veste linho
enquanto assina contratos com o diabo
em papéis opacos
e cláusulas microscópicas
de effectus mortis.

Teus rios ainda correm,
mas alguns já nascem contaminados por lobby.

Tuas filhas ainda dançam,
mas muitas vendem risos
em plataformas digitais
por migalhas de curtidas.

E teus filhos,
ah, teus filhos,
discutem fake news em bares gourmet
entre goles de whisky single malt
e restos de caviar soviético.

Memento mori.

Se ao menos essas ovas germinassem delatores,
se os pactos nas sombras
fossem expostos em praça pública
como carne seca ao sol,
seria o dies irae
da falsa moralidade.

Mas não, minha mater dolorosa.

O mal não está no povo,
esse que sangra sine qua non.

Está nos mercadores do templo,
que transformaram teu leite cultural em mercadoria,
teu afago em algoritmo,
teu cheiro de terra molhada em NFT.

Ainda sinto o doce das tuas águas,
aqua vitae,
o abraço da tua relva.

Mas agora são memórias
de um exílio interno.

Saudade,
essa palavra que só existe
porque o colonialismo
não soube traduzi-la.

Porém, escuta.
Não é o fim do jogo.

Até o tronco mais podre
renasce em cogumelo.

Resurget ex favilla.

A esperança é capim bravo.
Corta hoje.
Amanhã já rompe o asfalto.

Carpe noctem.

Que a próxima aurora
nos encontre
menos órfãos.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 04/04/2025
Alterado em 26/09/2026
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