

Ó Pátria Minha, Querido Monstro de Dois Corações
Memórias de um filho retinto
Ah, terra que não piso com a sola dos pés há mais de uma década. A culpa não é apenas da diáspora que seduz meus sonhos a colher frutos em campos alheios. Tempus fugit. Também não é só a capitalização da distância. Engordaste. Não da tua prole expansiva, essa que cresce a cada gemido úmido nas noites tropicais. Engordaste da normalização do ignóbil, da finesse casta que veste linho enquanto assina contratos com o diabo em papéis opacos e cláusulas microscópicas de effectus mortis. Teus rios ainda correm, mas alguns já nascem contaminados por lobby. Tuas filhas ainda dançam, mas muitas vendem risos em plataformas digitais por migalhas de curtidas. E teus filhos, ah, teus filhos, discutem fake news em bares gourmet entre goles de whisky single malt e restos de caviar soviético. Memento mori. Se ao menos essas ovas germinassem delatores, se os pactos nas sombras fossem expostos em praça pública como carne seca ao sol, seria o dies irae da falsa moralidade. Mas não, minha mater dolorosa. O mal não está no povo, esse que sangra sine qua non. Está nos mercadores do templo, que transformaram teu leite cultural em mercadoria, teu afago em algoritmo, teu cheiro de terra molhada em NFT. Ainda sinto o doce das tuas águas, aqua vitae, o abraço da tua relva. Mas agora são memórias de um exílio interno. Saudade, essa palavra que só existe porque o colonialismo não soube traduzi-la. Porém, escuta. Não é o fim do jogo. Até o tronco mais podre renasce em cogumelo. Resurget ex favilla. A esperança é capim bravo. Corta hoje. Amanhã já rompe o asfalto. Carpe noctem. Que a próxima aurora nos encontre menos órfãos.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 04/04/2025
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