

Carta Aberta à Sociedade Civil
O Paradoxo da Criança Negra em um Mundo de Contradições…
Querida sociedade de duplos padrões, como ser uma criança negra retinta em um mundo onde o direito à educação e a bala perdida correm em sentidos opostos? A ironia cruel: a bala sempre encontra meu cérebro, enquanto a educação de excelência alimenta mentes que nunca saberão o que é carregar na pele o peso da história. Como não ser sensualizado e, ao mesmo tempo, mergulhar em depressão quando a obscenidade melódica do funk ensina a novinha a sentar, não na cadeira escolar, mas no colo da repetição da miséria? Talvez engravide. Talvez gere mais um projeto de futuro incerto. Líder de facção? Corpo vendido para sustentar o dia? Ou apenas mais um zumbi, não o de Palmares, mas o que vaga pelos becos entre o roubo e o desespero, até cair no paraíso branco sem perceber que o filme é de terror. E então você pergunta: como não ser juventude perdida? Como não reproduzir o machismo quando a própria religião, em nome de um Cristo que amou a marginalizada, ensina que o homem dorme na cama e a mulher no chão? Como não crescer homofóbico, misógino e racista numa selva econômica onde o amor é simples, mas a simplicidade é devorada pelos predadores do sucesso? Às vezes, resta mergulhar no mar confortável da ignorância apenas para sobreviver. Chega. Rubens Paiva. Cláudia arrastada pelo asfalto. Ágatha. Amarildo. Evaldo. Gabriel. João Pedro. Kathlen. Luiz Paulo. Matheus. Miguel. Pedro Henrique. Rayssa. Marielle, a que incomodou o trânsito do poder. A cada novo nome inventamos um novo jeito de dizer mal-entendido. Décadas passam, e a dor continua sendo chamada de vitimismo. Não queremos ser estatística, então parem de nos tratar como números. Não queremos cair no crime, então parem de negar oportunidades. Não queremos repetir ciclos de violência, então parem de romantizar nossa dor. Esta carta é um espelho. Olhem para ele. O que vocês veem? Uma criança negra presa dentro de um homem que ainda acredita na revolução.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/04/2025
Alterado em 24/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |