D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Carta Aberta à Sociedade Civil
O Paradoxo da Criança Negra em um Mundo de Contradições…

Querida sociedade de duplos padrões,

como ser uma criança negra retinta
em um mundo onde o direito à educação
e a bala perdida correm em sentidos opostos?

A ironia cruel:
a bala sempre encontra meu cérebro,
enquanto a educação de excelência
alimenta mentes que nunca saberão
o que é carregar na pele
o peso da história.

Como não ser sensualizado
e, ao mesmo tempo, mergulhar em depressão
quando a obscenidade melódica do funk
ensina a novinha a sentar,
não na cadeira escolar,
mas no colo da repetição da miséria?

Talvez engravide.
Talvez gere mais um projeto de futuro incerto.

Líder de facção?
Corpo vendido para sustentar o dia?
Ou apenas mais um zumbi,
não o de Palmares,
mas o que vaga pelos becos
entre o roubo e o desespero,
até cair no paraíso branco
sem perceber
que o filme é de terror.

E então você pergunta:
como não ser juventude perdida?

Como não reproduzir o machismo
quando a própria religião,
em nome de um Cristo que amou a marginalizada,
ensina que o homem dorme na cama
e a mulher no chão?

Como não crescer homofóbico, misógino e racista
numa selva econômica
onde o amor é simples,
mas a simplicidade é devorada
pelos predadores do sucesso?

Às vezes, resta mergulhar
no mar confortável da ignorância
apenas para sobreviver.

Chega.

Rubens Paiva.
Cláudia arrastada pelo asfalto.

Ágatha. Amarildo. Evaldo. Gabriel.
João Pedro. Kathlen. Luiz Paulo. Matheus.
Miguel. Pedro Henrique. Rayssa.

Marielle,
a que incomodou o trânsito do poder.

A cada novo nome
inventamos um novo jeito
de dizer mal-entendido.

Décadas passam,
e a dor continua sendo chamada
de vitimismo.

Não queremos ser estatística,
então parem de nos tratar como números.

Não queremos cair no crime,
então parem de negar oportunidades.

Não queremos repetir ciclos de violência,
então parem de romantizar nossa dor.

Esta carta é um espelho.

Olhem para ele.

O que vocês veem?

Uma criança negra
presa dentro de um homem
que ainda acredita
na revolução.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/04/2025
Alterado em 24/09/2026
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