

Carta Poética ao Juiz das Almas (Baile das aspas)
Essa carta Ă© um processo judicial
contra o Brasil que nĂŁo assina embaixo. Data venia, Vossa ExcelĂȘncia, se eu falasse como escrevo, perderia minha essĂȘncia. Mas, se pensasse como escrevo, o ser perifĂ©rico nĂŁo sentiria o peso do jugo nem o eco dissonante do estalar do chicote. Imagine se todo assalto começasse com: âData venia, meritĂssimoâ, em vez de: âPerdeu, manĂ©.â âTamo juntoâ Ă© a sĂntese entre verbo e sobrevivĂȘncia, termo de associação entre dois mundos separados pela barreira fedida do tenebris pacta, enquanto narizes elitistas se erguem acima dos fios das togas. E entĂŁo, a favela venceu? NĂŁo sei. O que sei Ă© que anda bem frequentada. Ontem mesmo, um amigo meu deu de cara com a Birda. Quem Ă© ela? Filha malparida de um cano com numeração raspada. O velĂłrio serĂĄ amanhĂŁ. CaixĂŁo fechado. O beijo dela foi mortal. Estragou a cara. A atração Ă© fatal. Cem por cento efetiva. Pois Ă©, ExcelĂȘncia, o alvo dos moderni temporis nĂŁo Ă© redondo nem colorido. Ă preto, pardo e magro. No popular, o cria. No boletim de ocorrĂȘncia, suspeito armado. Enquanto doutores debatem habeas corpus, o trem-bala do ânĂŁo vai ter pra ninguĂ©mâ jĂĄ partiu da estação. A justiça⊠à s vezes parece rolezinho no shopping da razĂŁo. Todo mundo observa. NinguĂ©m compreende. E a causa mortis? Sempre a mesma. Bala. Fome. Ou tinta de caneta. EpĂlogo Agora que vocĂȘ leu, olhe no espelho. O meu rosto Ă© o seu. Minha voz Ă© o eco da sua garganta cansada de gritar. Se essa carta doeu, Ă© porque a ferida Ă© nossa. E, se arde, Ă© porque ainda sangra. A justiça que nĂŁo nos alcança Ă© a bala perdida que nos encontra. Um habeas corpus poĂ©tico para as almas condenadas pelo sistema. Quando a lei deixa de ser cega e faz stand-up de suas prĂłprias sentenças, a poesia vira mandado de segurança para o grito dos excluĂdos. Fechou, meritĂssimo. Data venia, nua e crua.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 10/04/2025
Alterado em 23/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |