

Carta ao Sentimento de Posse
Prelúdio: Libertação do Machocrata
Querida Posse, Desde o berço foste meu primeiro amigo imaginário. Na infância, coroaste-me dono absoluto do colo de minha mãe. Na adolescência, prometeste-me soberania sobre o primeiro beijo, sobre o primeiro corpo que imaginei conquistar. Sussurravas certezas enquanto eu, embriagado de hormônios, acreditava que viver era marcar território, confundindo desejo com domínio e prazer com poder. Hoje, no limiar da maturidade, olho para trás e percebo cada espaço que reivindiquei como conquista era, na verdade, um abismo. Inflaste meu ego. Ensinaste-me a colecionar corpos como troféus, mas não me deste as chaves da verdadeira liberdade. És doce no início, Posse. Excitas como sabor proibido. Mas amargas na digestão. Ofereces poder e roubas leveza. Prometes segurança e entregas solidão. Transformas carícias em contratos, paixões em propriedades. Fui teu cúmplice. Ergui impérios sobre areia movediça até o dia em que a vida exigiu desapego. Pergunto-te agora para que serves? Precisa o amor de cercas para existir? Ou és apenas sombra que impede o voo? Reconheço até quando fui objeto brinquedo espelho de vaidades tu me fazias acreditar que ainda dominava o jogo. Estágio primitivo. Ilusão necessária na evolução de um homem que confundiu proteção com posse e cuidado com controle. Hoje não te declaro guerra. Proponho transmutação. Que o instinto que antes aprisionava aprenda a libertar. Que a mão que agarrou aprenda a acariciar sem prender. A insegurança que chamávamos de amor era apenas medo de perder. E quanta beleza se perdeu nesse caminho. Leitor, se também carregas essa sombra, encara-a. Não a negues. Mas não a deixes governar. O verdadeiro poder não está em possuir, mas em compartilhar. Não em controlar, mas em confiar. Maturidade é trocar a ânsia de dono pela coragem de caminhar ao lado. E a ti, Posse, agradeço. Foste lição. Mas minha alma já não cabe em teus limites. Assinado, um ex-proprietário de ilusões.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 18/04/2025
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