D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Carta aos filhos da exploração colonial (Baile das Aspas)
Povo brasileiro,
19 de abril de um ano
que não me sai da cabeça,
e quem dançar nessa terra
não esqueça...

Eles aqui já faziam de forma cerimonial,
ao se conectarem com os espíritos
da natureza.

Baile das Aspas,
ou Como Queimar Judas
em Centenas de Prestações
sofridas.

Até nos dias de hoje...

Minha terra tinha indígenas.
Não era minha.
Era deles.

Sou negro.

Quase tudo se perdeu
na chegada do homem que dizia
trazer a luz.

Meu pajé se converteu.
Por força maior.
Força bruta.

Já não conversa com os elementos.

A palavra do desbravador
avistou a terra e decretou que tudo
poderia ser parcelado,
inclusive o sangue.

A carne indígena
saciou os desejos necessários
dos marujos civilizados.

Chamaram isso de evolução.

Hoje o indígena joga bola, bebe pinga,
aprendeu o preço do ouro
e assiste à própria terra
ser negociada
em prestações infinitas.

O pajé virou Judas.
Não o traidor bíblico,
mas o bode expiatório
do progresso.

Enforcado simbolicamente
em postes de garimpo.
Linchado por grileiros.
Apedrejado por políticos
em caravanas eleitorais.

Sentenças são assinadas
em gabinetes perfumados de cifras.

Enquanto nas escolas se celebra
o Dia do Índio
com fantasias de papel e penas plásticas,
no interior do país
corpos indígenas continuam sendo queimados
em nome do desenvolvimento.

O novo ritual de Páscoa
pinta rostos de vermelho,
não com urucum,
mas com sangue.

Crianças são sacrificadas
no altar do crescimento econômico.

Judas foi enforcado uma vez.
O indígena é executado todos os dias.

Pergunta que insiste
em não silenciar.

Quantas mortes cabem
numa hashtag?

Enquanto o país publica orgulho indígena
nas redes sociais,
um Kaiowá é atropelado
por caminhões carregados de soja.

A hashtag vira lápide digital.

O que querem os povos originários?
Não apitos.
Querem silêncio respeitoso
quando a terra grita.

Glória ao país cristão,
onde o céu parece ter endereço definido
e santos têm feições europeias.

Enquanto bonecos queimam
no Sábado de Aleluia,
crianças Yanomami tornam-se estatísticas
em relatórios contaminados por mercúrio.

Progresso é apenas
novo nome
para o antigo massacre.

O rio envenena.
O papel legaliza.
O curumim vira notícia breve.

Mas a resistência continua.

Um dia a terra
devolverá aos verdadeiros donos
a palavra que lhes foi roubada.

A caneta que nunca lhes foi entregue
será empunhada
não com tinta,
mas com o vermelho
que brota do chão ferido.

Disseram que eram selvagens.
Disseram que eram folhas secas
no vento da civilização.

Mas quem rasgou o céu
para vendê-lo em lotes?

Quem transformou território sagrado
em cifra?

A história escrita pelos vencedores
inventou perdão
onde houve massacre.

Hoje a escrita muda de mãos.

A tinta não secará
enquanto o sol
não nascer para todos
os que foram apagados
no rascunho da evolução.

Aproveitem o chamado Dia do Índio
antes que restem apenas estátuas
e o sangue vire objeto de museu.

Porque o amanhã pode chegar
tarde demais.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 19/04/2025
Alterado em 23/09/2026
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