

Carta aos filhos da exploração colonial (Baile das Aspas)
Povo brasileiro,
19 de abril de um ano que não me sai da cabeça, e quem dançar nessa terra não esqueça... Eles aqui já faziam de forma cerimonial, ao se conectarem com os espíritos da natureza. Baile das Aspas, ou Como Queimar Judas em Centenas de Prestações sofridas. Até nos dias de hoje... Minha terra tinha indígenas. Não era minha. Era deles. Sou negro. Quase tudo se perdeu na chegada do homem que dizia trazer a luz. Meu pajé se converteu. Por força maior. Força bruta. Já não conversa com os elementos. A palavra do desbravador avistou a terra e decretou que tudo poderia ser parcelado, inclusive o sangue. A carne indígena saciou os desejos necessários dos marujos civilizados. Chamaram isso de evolução. Hoje o indígena joga bola, bebe pinga, aprendeu o preço do ouro e assiste à própria terra ser negociada em prestações infinitas. O pajé virou Judas. Não o traidor bíblico, mas o bode expiatório do progresso. Enforcado simbolicamente em postes de garimpo. Linchado por grileiros. Apedrejado por políticos em caravanas eleitorais. Sentenças são assinadas em gabinetes perfumados de cifras. Enquanto nas escolas se celebra o Dia do Índio com fantasias de papel e penas plásticas, no interior do país corpos indígenas continuam sendo queimados em nome do desenvolvimento. O novo ritual de Páscoa pinta rostos de vermelho, não com urucum, mas com sangue. Crianças são sacrificadas no altar do crescimento econômico. Judas foi enforcado uma vez. O indígena é executado todos os dias. Pergunta que insiste em não silenciar. Quantas mortes cabem numa hashtag? Enquanto o país publica orgulho indígena nas redes sociais, um Kaiowá é atropelado por caminhões carregados de soja. A hashtag vira lápide digital. O que querem os povos originários? Não apitos. Querem silêncio respeitoso quando a terra grita. Glória ao país cristão, onde o céu parece ter endereço definido e santos têm feições europeias. Enquanto bonecos queimam no Sábado de Aleluia, crianças Yanomami tornam-se estatísticas em relatórios contaminados por mercúrio. Progresso é apenas novo nome para o antigo massacre. O rio envenena. O papel legaliza. O curumim vira notícia breve. Mas a resistência continua. Um dia a terra devolverá aos verdadeiros donos a palavra que lhes foi roubada. A caneta que nunca lhes foi entregue será empunhada não com tinta, mas com o vermelho que brota do chão ferido. Disseram que eram selvagens. Disseram que eram folhas secas no vento da civilização. Mas quem rasgou o céu para vendê-lo em lotes? Quem transformou território sagrado em cifra? A história escrita pelos vencedores inventou perdão onde houve massacre. Hoje a escrita muda de mãos. A tinta não secará enquanto o sol não nascer para todos os que foram apagados no rascunho da evolução. Aproveitem o chamado Dia do Índio antes que restem apenas estátuas e o sangue vire objeto de museu. Porque o amanhã pode chegar tarde demais.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 19/04/2025
Alterado em 23/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |