

Anjos (Onde Ele Realmente Brilha), caídos não! Excluídos de asas castradas por nós...
Anjos não voam.
Caminham com passos curtos entre nós. Alguns sobrevivem. Outros apenas ensaiam um sopro de vida. Há os que se permitem o luxo frágil de contemplar, por um instante, a auréola de quem lhes trouxe à luz antes de se dissolverem num suspiro profundo. Diagnósticos são arquivados como sentenças. Quantos querubins em cadeiras de rodas apedrejamos com o nosso silêncio? Há guardiões que rejeitamos por não caberem em nossos mapas, por não refletirem nossos rostos e nossa retina, turva de desprezo. Chamamo-los de especiais como se a nossa normalidade não fosse o veneno que os corrói. Assim cai mais um anjo. Anjos de cartilhas rasgadas, que leem o mundo em línguas que insistimos em chamar de sintoma. Alguns, de tão sensíveis, dançam entre águas turvas e límpidas, embriagados pelo néctar insalubre deste mundo, mas com a pele ainda capaz de transpirar pureza. Enquanto isso, há mesas onde Estado e indústria saboreiam lucros temperados com lágrimas de pais. E lá embaixo, entre migalhas e discursos piedosos, perguntam quem são aqueles que insistem em existir fora das molduras. São os da guarda invisível, os que equilibram a balança pisando na borda afiada do ridículo. Rotulamos o sagrado como transtorno. O natural, como desvio. Já paraste para pensar no que eles pensam de nós? Anjos. Eu conheço um. Vejo vários. E sei agora que é sob as asas deles, não sob as nossas, que repousa qualquer possibilidade de redenção. Para minha amada Dayane, o anjo que nos devolve a luz enquanto nossa pseudo-normalidade desmorona.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 30/04/2025
Alterado em 11/03/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |