

Presente para ler no escuro do Dia das Mães
(Para não dizer que eu não falei dos espinhos)
Poema para ler despido de pele para uma genitora… Eu, mais um filho sem pai, digo para você: “Mãe…” Se for para que eu peça perdão, começaria pedindo pela dor do parto. Pelo trauma do abandono e do corpo que o sistema recolhe depois do amor, comigo carregando a placenta, matéria-prima para cosméticos que te vendem sob o pretexto de recuperar a beleza que te foi surrupiada. Todos os meses em que me hospedei em teu ventre, provocando-te náuseas e ludibriando teus hormônios para sustentar cada partícula do meu ser em formação. Mas nada se compara à submissão e ao jugo de muitas eras. Você, depósito de esperma, saco de pancada de um macho que, orgulhoso, diz: “Emprenhei mais uma.” Só de pensar que minha descendência tem raiz na incoerência de um patriarcado que te nega os louros da evolução. Mas não para por aí. E, por castigo de um pecado que nunca existiu, te amaldiçoaram. E até hoje te chamam de pisão, cara Lilith, pra te lembrar que lugar de mulher é por baixo. “Porque é mais gostoso.” Pra quem? Devo te pedir perdão pela hipocrisia diária. Pois eu santifico a ti na minha casa, mas às da rua… essas eu faço “fiu-fiu” e digo “delícia”. Eu sou um bode solto. Sarro, passo a mão e ainda incentivo a prostituída. Até já dei um bom sentido quando a alguém chamo de “FDP”. Pra você ver como te valorizo… Mas hoje é o seu dia. Pra curar todas as feridas, eu te compro chocolate, te canto uma canção e te chamo de santa, a que pariu virgem, pra apagar evidências históricas do assédio, do abuso. Hoje… o placebo. O teatro. O assopro de barata invertebrada na ferida, pra servir de consolo… Talvez eu deixe escorrer uma lágrima, porque macho não chora, pra abalar seu sentimento, lobotomizar sua moral e roubar sua autoestima. Muitas vezes, depois de cozinhar por toda a manhã, é chegada a grande hora: ao seu redor, toda a prole pra vomitar, nua, em sua face, sorrisos fofinhos. “Não é que a netinha é a sua cara, mamãe?” Enquanto você observa e, por dentro, lamenta, dizendo: Coitada… Mais uma princesa de virilha quente, máquina de gerar seres falsos, órfãos de bom senso e portadores de uma retina deficiente, daltônica à realidade da mulher. Hoje vamos comer fora, minha rainha. “Ele é bruto… mas me trata com carinho.” Rainha no domingo, mas, no menu da falsa moralidade, galinha o resto da semana. Hoje… te deram um dia… Como se um dia bastasse… E basta? P.S. Eu sou o filho que vocês queriam forte, mas que escolheu ser justo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 11/05/2025
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |