

Homo economicus
“(Sold off)
Aguardando reposição no estoque.” Caríssimo eu: Esse poema é para ser gravado em papel de pão e ser lido com coragem enquanto você se masturba debaixo da chuva de elogios por sua nova aquisição. Quero Querer Querendo Pare. Para por quê e pra quê? E dar? Você sabe? Esse nosso egoísmo que devora tudo como se não houvesse amanhã. Mal passou um segundo e o abismo das nossas vontades lamenta como criança carente de tudo que já temos. Mimados do que não precisamos, nos digladiamos na sexta-feira preta sem perceber que pisamos em alguém. Mas, ah, é só por consumir mesmo, viu? Tá na moda… Também tá no sangue, na exploração humana, no trabalho escravo, nas crianças sem infância e sem educação. Cérebros lobotomizados em construção. Chama de progresso? Mas o grito ecoa retrocesso. Não? O consumista de hoje é o produto de amanhã nessa engrenagem que transcende o tempo, manipula vidas e quebra sentimentos, nos moldando: Máquinas Manufaturados Enlatados Processados Confortável, né? E a propaganda? Afinal, quem fatura com sua fome? Ela é o colírio que te cega com imagens de ofertas de cores piegas. Elas são donas de suas vontades mais íntimas. Eles? Altruístas, diz você… Mas é nos detalhes dos descontos que o diabo mora. Te acorrentam a língua em sabores de laboratório. A primeira dose é grátis, mas, depois da ressaca, você percebe o tamanho da nota, digo, pica. Até que ponto sustentar essa farsa do “ser ou não ser”, como se ainda fosse escolha e não slogan reciclado da vitrine do ego? Corte as cordas que sustentam e guiam seus passos. Perdeu, marionete. Você já faz o que eles querem. Come o que eles põem na sua mesa. Se veste com a falta de identidade, como bovino do rebanho coletivo. Até teu cheiro já não te pertence. Foi vendido na net para melhor atender seus eloquentes anseios. Agora tenta. Eis a questão: você tá todo dominado. Tenta escutar a sinfonia do ridículo. Mas cuidado: até a harmonia dessa música chamada vida está carregada de arranjos e notas que viciam. A dependência mata a alma. E, quando puser a cabeça pra fora desse mar de lama e tentar respirar razão, descobrirá que: Você nunca foi dono do seu ego… Queria. Mas aí você descobre que até o vazio tem preço e que não existe almoço grátis. Jura! Um nada que o capitalismo agradeceu e parcelou em três vezes sem juros. Eu, Homo economicus, a evolução da felicidade supérflua. E, se você chorou ao ler isso, seus dados de biometria emocional já foram vendidos para a próxima campanha de descontos em antidepressivos. E no fim? Na sua lápide, em vez de palavras bonitas, um código de barras sutil: 0000000000 Aqui jaz um consumista.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 16/05/2025
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |