D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Homo economicus
“(Sold off)
Aguardando reposição no estoque.”

Caríssimo eu:

Esse poema é para ser gravado em papel de pão
e ser lido com coragem enquanto você se masturba
debaixo da chuva de elogios por sua nova aquisição.

Quero
Querer
Querendo

Pare.
Para por quê e pra quê?
E dar?
Você sabe?

Esse nosso egoísmo que devora tudo
como se não houvesse amanhã.
Mal passou um segundo
e o abismo das nossas vontades
lamenta como criança carente
de tudo que já temos.

Mimados do que não precisamos,
nos digladiamos na sexta-feira preta
sem perceber que pisamos em alguém.
Mas, ah,
é só por consumir mesmo, viu?

Tá na moda…
Também tá no sangue, na exploração humana,
no trabalho escravo, nas crianças sem infância
e sem educação.
Cérebros lobotomizados em construção.

Chama de progresso?
Mas o grito ecoa retrocesso.
Não?

O consumista de hoje
é o produto de amanhã
nessa engrenagem que transcende o tempo,
manipula vidas
e quebra sentimentos,
nos moldando:

Máquinas
Manufaturados
Enlatados
Processados

Confortável, né?

E a propaganda?
Afinal, quem fatura com sua fome?

Ela é o colírio que te cega
com imagens de ofertas de cores piegas.
Elas são donas de suas vontades mais íntimas.

Eles? Altruístas, diz você…
Mas é nos detalhes dos descontos
que o diabo mora.

Te acorrentam a língua
em sabores de laboratório.

A primeira dose é grátis,
mas, depois da ressaca,
você percebe o tamanho da nota,
digo, pica.

Até que ponto sustentar
essa farsa do “ser ou não ser”,
como se ainda fosse escolha
e não slogan reciclado da vitrine do ego?

Corte as cordas
que sustentam e guiam seus passos.

Perdeu, marionete.
Você já faz o que eles querem.
Come o que eles põem na sua mesa.
Se veste com a falta de identidade,
como bovino do rebanho coletivo.

Até teu cheiro já não te pertence.
Foi vendido na net
para melhor atender
seus eloquentes anseios.

Agora tenta.

Eis a questão:
você tá todo dominado.

Tenta escutar a sinfonia do ridículo.

Mas cuidado: até a harmonia
dessa música chamada vida
está carregada de arranjos
e notas que viciam.

A dependência mata a alma.

E, quando puser a cabeça
pra fora desse mar de lama
e tentar respirar razão,
descobrirá que:

Você nunca foi dono do seu ego…

Queria.
Mas aí você descobre que
até o vazio tem preço
e que não existe almoço grátis.

Jura!

Um nada que o capitalismo
agradeceu e parcelou
em três vezes sem juros.

Eu, Homo economicus,
a evolução da felicidade supérflua.

E, se você chorou ao ler isso,
seus dados de biometria emocional
já foram vendidos
para a próxima campanha
de descontos em antidepressivos.

E no fim?

Na sua lápide,
em vez de palavras bonitas,
um código de barras sutil:

0000000000

Aqui jaz um consumista.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 16/05/2025
Alterado em 25/09/2026
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