

Subversivo e desnecessário (Talvez não)
Caríssimo eu:
É sobre o cansaço de ser bom num mundo de vampiros emocionais. E se você chupar limões de coerência para pôr acidez na razão, eles adoçam com elogios e afagos com teor alcoólico de noventa por cento, para embriagar seu ego. Por precaução, cuspa o alho podre das bem-aventuranças bíblicas, que soam totalmente supérfluas aos ouvidos da individualidade que peca e te seduz a acomodar-se no pouco da evolução. Desculpa, Gil. Como assim, se eu quiser falar com Deus? Ele que quiser, que fale comigo e me explique por que me sacrificas na cruz da ingratidão humana todos os milésimos de um tempo degradado. Sim, quero desculpas, sim, e indenização por ser um pai ausente. Me criaste? Não, me propagaste. E até que nada conteste, até que me prove o contrário, ou ele venha assumir essa paternidade, eu sou a cara da minha mãe. E minha cara não é de fome por conveniência, nem tampouco minha cor. Mas… me dou, me dei, e não me deram nada em troca. Sigo firme, talvez. Cada vez mais que tento ser o cordeiro indo ao abate, a ovelha negra, latifundiária do eu, me liberta. Por que zombas de mim, ó mártir satírico? Me diz: beba da minha bondade e devore minha benevolência até que não sobre uma gota de empatia para contar histórias à sua fome egoísta nas noites em que choram as estrelas. Procuro palavras, mas elas sagram sobre um pensamento sem luz. E, sobre a mesa de frios, servem a mim o cardápio póstumo do dia: reconhecimento temperado com objetividade e, para beber, o fel do muito obrigado entre os dentes, pois, se acrescentar um sorriso, é mais caro. Mas ironia, sarcasmo e falsidade têm aos montes em potinhos de serviço sobre a mesa. E não se preocupe, que o garçom amigo já acrescenta no seu prato. Fazer o quê, né? Tenho que comer como se não houvesse amanhã, ou até que o coletivo entenda que viver à margem da reciprocidade alheia só segrega. Isso nunca foi questão de escolha. Te moldaram nesse ser de cálculos e frieza. Limitado e calculista rima abstrata com desarmado e perigoso. Ainda tem gente que diz: “O amanhã pertence a Deus.” Esses falsos e conformistas… Me deito sobre a ideia de que a pergunta que ecoa dentro do filho santificado é: o que eu realmente recebo em troca da minha entrega? E ele me criou à sua imagem e semelhança… Agora, se quiser, que fale comigo, pois me deve muitas explicações.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 20/05/2025
Alterado em 22/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |