

Carta ao desejo
Eu te desejo, mas, acima disso, eu te admiro.
E, mesmo se vocĂȘ se afastar, brilhe, porque sua luz jĂĄ estĂĄ em mim. Meu cristal precioso⊠Amar alguĂ©m Ă© reconhecĂȘ-lo como um universo, nĂŁo para explorar, mas para honrar. Amar Ă© mais do que sentir: Ă© estudar, desvendar, respeitar, ouvir o grito escondido por trĂĄs do sorriso, dançar com os ciclos e nĂŁo tentar domĂĄ-los. TucumĂŁ, manjar dos deuses terrenos, que escorre entre os dedos como o tempo, doce, ĂĄspero e vital, que anseio provar em seu nĂ©ctar. O sabor eu jĂĄ imagino, com sede: tem gosto de vida e amor numa rede. VocĂȘ? VocĂȘ⊠vocĂȘ nĂŁo canta. VocĂȘ me conecta com uma força maior que faz pulsar em mim uma alegria que represa minha alma para nĂŁo se derramar em rios tristes. Abre portais onde palavras viram constelaçÔes de significados ainda nĂŁo revelados. VocĂȘ, poema, Ă© um asterismo regando versos com seu ciclo lunar, vitĂłria-rĂ©gia, rĂ©gia, coroando Iara, flutuando no fluxo da Via LĂĄctea. Seu sorriso, um fenĂŽmeno literĂĄrio que desafia as leis da fĂsica emocional. A cada leitura do seu sorriso, suas covinhas no canto da boca me revelam novas partĂculas de sentido, que minha retina fotografa: a pureza de uma mulher, um ser que ama como uma criança. Cada fragmento do seu movimento lĂrico Ă© uma descoberta no colisor de versos. Agora, solte-se no cosmos que eu vejo na imensidĂŁo do abismo de luz lĂquida do seu olhar. Talvez seja reflexo da sua alma. Mas ali dentro tambĂ©m ouço um grito de basta. NĂŁo um pedido de socorro. AtĂ© porque a felina que habita por trĂĄs dessa mĂĄscara de mulher frĂĄgil Ă© muito mais potĂȘncia que todos os leĂ”es da Terra. Pergunte, sem microfone, ao seu ego: serĂĄ o amor uma forma de astronomia Ăntima, onde mapeamos constelaçÔes nos olhos do outro? VocĂȘ Ă© uma estrofe primordial do cĂąntico de pajelança em um rio amazĂŽnico: na superfĂcie, reflete o cĂ©u e o lirismo; nas profundezas, esconde piranhas, a revolta, e frutos dourados, a esperança. Liberte-se sendo liberdade. Brilhe sendo nĂșcleo do Sol. Porque atĂ© os buracos negros, esses silĂȘncios curvos, precisam de luz, de um gume de presença, e de matĂ©ria para mastigar, para que o nĂșcleo, esse coração de espanto, nĂŁo se rasgue no vazio da prĂłpria eclosĂŁo. NĂŁo sei. Certeza, sĂł tenho uma: ao ver seu sorriso, meu coração dança ao ritmo de uma evocação tribal.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 23/05/2025
Alterado em 01/06/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |