

Despersonalização Consciente (A subjetividade se reconhece como um constructo social)
Senti um nó no estômago vazio da ausência de bom senso.
O que é valor moral de emoções que, à primeira vista, são nobres? Veja bem, eu sei que alguém já disse: “O inferno são os outros.” Sartre, seu sacana. Eu digo: “O inferno é saber que eu sou os outros.” A TV me deprime, a vitrine me oprime, consumo me consome. Almejar me faz sentir-me sublime, desejar me confunde, sentir pena suborna meu ego. Ser empático me deixa cego. Criticar me esvazia, avaliar atrofia meu pensamento. Curtir me dá fama, brilhar me apaga. Escolher me dá indigestão, ganhar me causa indignação. Ficar em silêncio causa ruídos. Pra não enxergar, eu tapo os ouvidos. Respirar reduz o meu intelecto. Eu me sujo para me manter limpo. Minha verdade é uma mentira. Mergulho para sonhar, desperto para viver um pesadelo. O sol é o único que sabe que, pra viver, eu preciso morrer e nascer do meu passado. Enquanto a lua ri do meu renascimento, o futuro amaldiçoa o presente. E o que me dão de salário me faz refém da comodidade, da falsa sensação de estar feliz, absorvido pelo conforto desumano dos elogios adversos à sinceridade. Minhas lágrimas envenenam a razão, meus sentimentos me inspiram maldades. Minha culpa é não ter pisado no minuto perdido. Meu orgulho foi ter ejaculado precocemente, atemporal, e ter engravidado minha esperança de um natimorto. Retire o velcro da mentalidade pós-colonial e, caso ousares, arranque a ironia das pontas dos dedos e tranque seu espelho. O que Narciso não vê não é lembrado. Pseudo-Midas, o isento é cúmplice do ouro de tolo. Estimado leitor, comparsa dos meus devaneios, aqui deixo um adendo sem escusas: Você chegou ao fundo do poço e descobriu que o fundo era um espelho. Agora, resta decidir: quebrá-lo ou aceitar o reflexo? Despersonalizado, finjo que ainda me importo. Mas, no fundo, até essa indiferença é um papel que decorei. Memento morium. Se, caso refletir, a culpa é sua. Mas o faça longe de cordas, facas ou qualquer outro objeto que potencialize sua ira. Este poema pode ser a lâmina de gume duplo que a covardia ainda te impede de usar corajosamente.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 29/05/2025
Alterado em 22/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |