

O que sentir ao devorar palavras? A Esfinge no divã e a nudez do poeta. O dilema.
Querida amante, prefiro imaginar-te assim, você é algo que desejo, mas respeito: não me pertences. Porque sou poema e mar, profundo, movediço, salgado de lágrimas e doce como espuma.
O intenso sorri apenas dois caracteres: Você, inspiração. Eu, o inspirado. Esse símbolo carrega fluxo, vida e eterno.
Movimento assim as palavras, como se manipulasse a atmosfera suada da nudez do seu corpo no instante em que jorro estrofes e te fecundo a terra molhada.
Sangro, não choro.
O abismo do poeta é tão profundo que o universo se excita em pensar no medo da queda, pois ele literalmente expande sentimentos em palavras, faz nascer a luz na sombra da escuridão das mentes enclausuradas e fogo nos olhos dos amantes.
É mater.
O pranto do poeta é tão denso que a mais pesada dor se afoga ao mergulhar no mar de fantasias do seu subconsciente. É de uma umidade pura que, ao banhar-se, os mais profanos raios de sol se transmutam em cores de íris.
É rio sedentário, é a folha que despenca dos galhos do cérebro e cai na correnteza do existencialismo que deságua afeto no mar de deleites da boca molhada.
É gasoso.
O amor do poeta é o útero que gerou deuses, a placenta que alimentou a história depois que ela pariu o tempo sobre a estrada.
É o pilar da criação, onde erupções motivacionais derrubam temporais de perseverança nos dias de fraqueza da carne.
É bruto.
A inspiração me faz pensar: Será que todo poeta carrega um abismo? E será que a arte é a corda que nos segura ou o empurrão?
Erotismo sublimado, mas não explícito, é desejo transformado em verbo.
É natural que o corpo ainda pulsa pontos e vírgulas.
Eu? Um poema que sangra e incendeia. Que fala da dor como matéria-prima e do amor como força geológica.
Se eu pudesse resumir em uma palavra, na verdade, não posso.
Contraditório eu querer, quando não posso ser juiz, réu e vítima.
Só me resta ser poeta.
Arte alfa, mente coletiva, omega e resiliência.
Nota:
Querida amante, inspiração e devoradora, o querer é o abismo que excita o universo, mas também a corda que empurra e que define a minha queda, pois o ato de escrever é um ato sexual, a mão que manipula palavras como quem toca seu corpo.
Você acha que me devora, quando eu sou algo que você bebe: a chama do poema.
Sou seu vício. DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/06/2025
Alterado em 22/04/2026 |