

Pacto semanal
Oração antes de comer o pão que ele,
o destino destinado, senhor destino, amassou… Agora engole seco até que arranhe a alma. Caríssimo, mais velho que todos os dogmas que os homens criaram para depois servirem como hóstia aos mais explorados, lobotomizando a capacidade mental humana a cada joelho dobrado, depois de cada gole do teu sangue, servido por aqueles celibatários que adoram o menino. Não o Jesus… Essa segunda-feira, eu fiz um pacto com o resto da semana. Com o dia de hoje, segunda-feira, meu pacto é ter foco e organização. Com o amanhã, terça-feira, meu pacto é não desistir, por maior que seja a caminhada. Com o porvir de quarta-feira, meu pacto é parar e respirar, para entender que não é a falta de resiliência que pode me fazer engasgar no percurso, mas sim a ganância tola de achar que todos os meus problemas precisam ser resolvidos, com êxito, em uma só tragada… Com a quinta-feira, meu pacto é avaliar o que a mão alcançou, repousar os olhos sobre meus próprios ombros e me dar os afagos merecidos de um conquistador que, mesmo não tendo concluído todo o percurso do planejamento inicial, ao menos percorreu e executou aquilo que o seu bom combate lhe consagrou como vitória. Entendo que um copo já está cheio de partículas de ar, e não vazio, como veem os olhos cegos aos ideais. Com a sexta-feira, meu pacto inclui um tratado perpétuo com o sábado e o domingo: ser feliz, mesmo que a chuva de lágrimas dos ais alheios tente salgar minha fé e minha razão de viver. Afinal, o fim de semana começa ali, no momento em que eu digo. No fim, eu digo, ou talvez meu silêncio ecoe até o último segundo, assim: Ah, luz da manhã… eles nunca entenderam sua rebeldia sacra… Talvez, se entendessem, diriam: Cuidado com os deuses que te querem curvado… e com os calendários que tentam roubar tua autonomia. E mais cuidado ainda com sua fé no templo mercador de palavras e nas revelações dos profetas que negociam e distribuem as lãs do rebanho do Cordeiro como votos em nome de Deus e da família. ⸻ Epílogo Dedicado a você, para mim e para eles, que realizam sonhos erguendo palácios com o labor do pesadelo dos que santificam a crucificação. E, ao mesmo tempo, apoiam o falso primogênito de Abraão exterminar os conterrâneos do crucificado. Que esta semana seja autônoma entre oração e manifesto, entre salmo e crônica. Esteticamente, não seja híbrido: seja inteiro. Flua como prosa poética, mas carregue a cadência de uma ladainha moderna. Filosoficamente, não seja puritano: seja e viva como licença poética. Desconstrua a fé cega, exalte a autonomia e faça da semana um rito de resistência íntima. Sinta-se pequeno e grande ao mesmo tempo. Pequeno, por perceber o quanto fomos condicionados. Grande, por lembrar que podemos pactuar com a liberdade todos os dias. Liberte, que será também libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 04/08/2025
Alterado em 23/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |