

Anacronismo de sobrevivência: “ele, o acrônimo”
Digníssimo eu, tentando entender o peso de existir,
o caos, o papel social, a dissonância interna. Trago de herança a pele marcada a ferro, uma cicatriz, e, na mente ainda assombrada, o estalar das chibatas. Gritos… E o subconsciente, “liberto” de quê? Se nunca esteve preso… manipulado, talvez, sussurra: Tu, ó maldito fruto da senzala, já não cabes nas vestes da casa-grande, pois a planta dos teus pés estranha a sintonia com a terra fria, banhada pelo suor da linhagem que te antecedeu. …O que é que eu estou fazendo aqui? Se… Para uns, sou visceral. Para outros, sou atemporal. E, para os meus próprios olhos, sou realidade, um reflexo imperfeito de um espelho que aprendeu a mentir sem rachar. Disfarço a insatisfação de ser o elefante que balança em uma teia de aranha: pesado demais para cair, teimoso demais para parar de dançar. Sou o sociável exacerbado de movimentos disléxicos, que tenta ler cada entrelinha do dia sem perder a real dimensão que salta desfocada entre vírgulas, pontos e pausas das ironias que se acomodam no sarcasmo dos pseudossinceros. E, se eu pudesse sentar e dialogar com a morte, com certeza não reclamaria da vida. Olharia nos olhos dela e diria: Eu vivi a vida, cara mia. Sem máscaras de mártir. Sem medalhas de sobrevivente. Sem orgulho ou arrependimento. Já perdi a conta dos dedos que me apontaram, dizendo: foi esse aí… Talvez a morte se sentasse também, curiosa com o tom da minha voz, e ouviria meus silêncios entre as palavras como quem lê entrelinhas num livro escrito com o suor das tentativas. Porque o fim não é sentença. É ponto final com gosto de reticências. E eu, acrônimo de mil sentidos, sou só mais um retinto que tentou caber numa palavra só: vida. Mas insisto, com cada letra sobre o papiro do teu consciente, em não ficar apenas na tentativa. E aí… Você não errou. Apenas tropeçou poeticamente em uma palavra que te levou por outro caminho criativo. E olha que ironia linda: um anacronismo acidental, em si, já é um anacronismo. Não sou só um acrônimo. Nem sou um ideal para ser teu coadjuvante, esse ideal ao qual me acorrentaram para todo o meu sempre. Amém perverso, prego dos grilhões que tentei arrancar com as unhas das madeiras molhadas de lágrimas, sangue e sal nos porões dos navios negreiros. O protagonista perfeito: preto, pobre, de periferia. Fui reduzido a siglas, rótulos e sobrevivências e colocado em um tempo que não me reconhece. Mas, ainda assim, resisto em poesia. Fragmentado pelas exigências, compactado pelas dores, sou a sigla de mim mesmo, um ser deslocado no tempo, cujas letras escondem mais do que dizem. Ah, se vocês me lessem com uma retina daltônica… Sim, entenderiam que o privilégio de castas criou um monstro intelectual que transcende tudo o que vocês enlataram e me serviram barato como banquete em dia de graça. Eu sou feito de pedaços de mim mesmo. Me resumiram em siglas, em rótulos, em sobrevivências. Mas, dentro dessas letras, há um mundo não dito. Um longa-metragem que não é escolha de melhor filme e a música que soa como ruído aos tímpanos da educação clássica. O beat afro que incomoda só por respirar. Deveria pedir desculpas pela violência da linguagem que resume vidas em estigmas. Mas não vou. Que hipocrisia da sociedade que aplaude o sofrimento enquanto invisibiliza o autor, que precisa coexistir com o dilema de quebrar, em cada fração de segundo, o espelho do tempo normativo e olhar com outra lente, talvez daltônica, talvez de dentro. Não… Ele não é uma elegia. É um grito em construção, como se dissesse: Vocês não sabem o que há dentro dessas letras. Mas eu sei. E, mesmo esmagado por elas, eu existo. Eu escrevo: esse não sou só eu. Esse é o homem que vocês matam todos os dias com palavras, olhares e silêncios. E, ainda assim… ele respira. E há de haver um futuro em que um narrador começará uma história assim: E naquele tempo… havia um homem preto, um ser que era apenas letras paridas do açoite, fragmentos da rica ancestralidade cultural, mas carregava dentro de si o universo inteiro.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/08/2025
Alterado em 24/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |