

Elementar… Aí que está o pulo do gato.
Estimado mártir, você que se enforcou
com as correntes do tic-tac da cronografia, saiba: gatos usam bigodes para navegar no escuro. Poderia isso reforçar a ideia de que a urgência é a escuridão que ensina a evolução? O que é urgência, afinal? E que caminhos a elevaram a esse patamar? É fácil repetir que pau que nasce torto morre torto. Difícil é lembrar que houve mãos, desde a semente, podando o que poderia ser caminho. Será o tempo que corre ou somos nós que o perseguimos, sombras sob um sol que nunca se põe e que às vezes nos cega? Precisamos da noite, lugar de ver por dentro e refletir sobre a quantidade de água lançada ao solo fértil dos dias. A pressa é filha do medo, o medo é filho da falta e a falta nasce do esquecimento de que já somos completos. Quem pauta meu ritmo? Esquecemos nossa inteireza. Corremos para chegar a um lugar onde já estamos. Urgência é o vento que balança a folha, mas não a raiz. É o rio que corre para o mar sem saber que já é oceano. O coração bombeia, o fígado depura. Que o corpo te ensine o rito. Filtra-te. Respira… O essencial não se apressa. Espera ser descoberto no silêncio entre um instante e outro. É na falta de luz que o tato aprende a guiar. A noite, o silêncio e o filtro são atos de cultivo, não de atraso. Completude esquecida. A falta nasce do desconhecimento de que já temos o essencial. O rio é oceano. Nós já somos inteiros. Afinal, o gato não pula por pressa, mas porque o arco da vida é um convite ao voo. O salto verdadeiro nasce do chamado. Não pular por medo. Voar por sentido. ⸻ Epílogo do pulo do gato Serenidade lúcida traz um sossego que não é fuga, é consciência. Confiança que dá a sensação de que o tempo essencial me sustenta, não me cobra. Afinal, o cuidado é a voz que fala como quem põe uma mão no ombro e diz: calma, você não precisa se provar ao relógio. ⸻ Dedicatória ao amigo Martim Ribeiro Querido irmão na música: Viver não deveria ser um fardo, mas é, dependendo de como a luz chega à sua retina. Sem peso, não lutarias para emergir a tua própria vontade. E pensar que, na ânsia de sentar-se ao topo do Olimpo, eles romperam o estômago do tempo que lhes havia devorado. Se eles, agora deuses, precisaram desse esforço, por que nós nos acomodamos nos ais dos tempos perdidos? Lembrei dos antigos, os ancestrais vindos de além-mar, que diziam: o tempo é pai, e não padrasto. Zará Tempo. Tempo Yiô Reza. Libertar, que será libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 08/08/2025
Alterado em 23/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |