

Memorando memórias náufragas
Um pensamento entre tempos de mar revoltos
Antídoto, não. Síntese. Caríssimo pensador, a você que assiste, sem sinais de inquietude, os alicerces desta nau que navega trêmula no mar da contemporaneidade, mas já esboça ânsia de vômito… Segura-te firme nos pontos e vírgulas dessa teia que a modernidade nos aprisiona. Sabes nadar? Não se assuste. Hoje, o mar da hegemonia não está pra peixe. Deixa quieto… Memórias que não deixam rastro é melhor não seguir os passos, para não pisar em falso e tropeçar. Mas tudo precisa, ou deve, ser desenterrado. Você opõe o impulso de remexer ao gesto de cuidar da história, pois cabe ao narrador a responsabilidade dos pontos e vírgulas. E a quem escuta, respirar antes das conclusões que flertam com as hipóteses do imaginário. Sendo são… ou não. Tem memórias que são como chão de areia: se a gente mexe demais, perde o desenho que o vento fez. Algumas coisas ficam mais bonitas, e mais seguras, guardadas no silêncio. E memórias, na mistura da massa de concreto, que, entre um riso, uma prosa ou um samba entoado em coro, materializam a parede: sonho que sustenta um teto, abrigo para mais memórias do porvir. Quando a memória cura e quando fere? Talvez um fato familiar ou uma invasão, logo após um pé na porta, seguido de um: Deita no chão, vagabundo. Como construir futuro sem esmagar o passado? Então deixamos onde estão e seguimos pelo caminho que tem luz, música e o passo firme. Afinal, quem carrega melodias sabe que nem todo som precisa ser tocado para existir. O ato de conter o grito é covardia ou sabedoria? O silêncio, como proteção da forma que o vento fez, dá ao tom uma conversa íntima, firme e terna, e o texto se move do ato de conter o deixa quieto. E a curiosidade, deixa? Havia um tempo em que as músicas faziam pensar, e não amar com subserviência. São os dias de escolher lembrar ou esquecer que definem nossa identidade coletiva. Negar uma única interpretação da arte é resistência. O puro suco da arte lançada ao abismo abstrato do esquecimento. E tentar emergir é um ato deveras convidativo ao questionamento, tratado como crime tendencioso por quem teme o debate. Não escravizar o pensamento crítico é quebrar os grilhões que manipulam sua memória. É a faca que você esconde no sapato, o sal que não deixaram na sua mesa, ou o verso que engasgaram na tua garganta. Dizendo-te: Não pense. Não lembre. Vegete. Porém, eu, amigo pensador, me tornei o avatar da contestação, o cartógrafo dos naufrágios involuntários. Sou eu quem prefere afundar com minhas verdades a flutuar em mentiras confortáveis. Aqui te entrego o leme dos acontecimentos. Segura firme e guarde-o como se fosse a última garrafa de água no mar da amnésia coletiva. Se, ao chegar ao porto dos dementes de conveniência, me encontrares morto, saberás que valeu alçar na sua rede cada verso neste mar de pensamentos. Mas, se me encontrares vivo, pescaremos juntos as letras que compõem essa revolução que começa hoje, antes que a noite caia e exponha nossos brilhos. E, para os que ousarem argumentar: Se, depois de tudo isso que você leu, não se iluda, a maré ainda está contra. Libertar, que será libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 09/08/2025
Alterado em 23/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |