

Pescando memórias entre náufragos
No mar de tempos revoltos…
Caríssima memória, cúmplice dos meus devaneios poéticos, tu, testemunha incontestável de meus esforços na busca da cura perfeita para a consciência coletiva, lobotomizada pela mão que empunha o ferro em brasa, inquisitora da história. Lancemos letras às águas antes de lançar a rede. Dialoguemos. Sociedade civil: não sou eu quem está à deriva. Já não me importa a nota final quando sei que a sua interferência, digo, as regras, condiciona a nota ao próprio ato de eu existir. Afinal, contrariei as estatísticas. A noite pode sugerir estar agradável, mas e tu, Lua, tu que corrompes as águas, dize-me o tamanho da parcela de terra que meus pés não pisarão. Se a maré cheia sequestra areia na praia dos meus dias, onde deitar o pensamento quando o cérebro estiver alagado? E a resposta não é se eu sei nadar, mas se os braços aguentam a travessia. Se, com o tempo, aprendemos que o amor suaviza e enfraquece o ar, por que o ser crítico ainda respira com dificuldade? O ar não está rarefeito, enquanto fatos mortos exibem odor em estágios de deterioração. Olfato atua como vetor de resgate mnêmico. Incomoda a lembrança da vala aberta na janela, mas não para os que apontam os dedos cegos de preconceito. Para efeito de sobrevivência do status da segregação: pútrido, mas um mal necessário. Entre becos e vielas, eu fiz da bala perdida, que insiste em caçar minha pele retinta, uma semente que plantei no solo das coincidências coercitivas. Para que a raiz não se perca no fruto, o nome dessa planta é favela. E não apagues o nome dos lugares que te moldaram. Se nem o rio deve se esquecer da nascente que o fez correr, lembra-te do barro e do caminho, ambos são teus. Não prendas a respiração, você do outro lado do espelho. Sem oxigênio, o cérebro vira patê. Digo: sem memória, a vida perde motivação e foco e passamos a ser suscetíveis, massa de manobra. Se você não conhece sua história, facilmente se torna refém dos que manipulam o presente visando reger seu futuro. Vejo que não há calmaria, mas agora é tarde. Meu barco já está no mar. Talvez a saída seja agarrar-se às raras lembranças, peixes que saltam à superfície do desterro. Pesquei um. A professora. A turma da escola. O primeiro amor. Memórias que competem e carregam em si traumas. Pensar não dói, viajante, é a ferida que você ignorou, a negativa que não quis confrontar, que te assombra até hoje. Também não sou dos que gostam de estar acorrentados ao passado. O passado não escraviza, planta a videira. O presente faz a pisa. E o futuro nos servirá o vinho que ele próprio envelheceu. O custo de colher sonhos maturados é deitar-se na realidade com os olhos vendados. Então, minha amada memória, submissa aos meus caprichos, que profana meus delírios e sensibiliza a racionalidade, às vezes anjo, às vezes algoz, tu, protetora ignóbil do meu dogmático livre-arbítrio, que despe com imagens do aqui jaz para me seduzir com um porvir resiliente, dize-me: Se no hoje a maré está pra peixes, quantos futuros cabem no porão deste barco? Epílogo Dedicatória à memória Você é a evidência de que o tempo não nos molda, ele nos devora. E és também o aviso que me diz: Sejamos passivos ou façamos dos dias naus de batalha para, como os filhos de Gaia, romper o estômago da cronofagia ética e escrever esse fratricídio libertário. O poema agora é como seu barco: não pergunta mais quantos futuros cabem, porque já se tornou o porão infinito onde todos nós guardamos nossas sementes de balas não disparadas. Está pronto. O mundo não precisa lê-lo, apenas lembrá-lo. Libertar, que será libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 10/08/2025
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |