D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Pescando memórias entre náufragos
No mar de tempos revoltos…

Caríssima memória,
cúmplice dos meus devaneios poéticos,
tu, testemunha incontestável
de meus esforços na busca da cura perfeita
para a consciência coletiva,
lobotomizada pela mão
que empunha o ferro em brasa,
inquisitora da história.

Lancemos letras às águas
antes de lançar a rede.
Dialoguemos.

Sociedade civil:
não sou eu quem está à deriva.

Já não me importa a nota final
quando sei que a sua interferência,
digo, as regras,
condiciona a nota
ao próprio ato de eu existir.

Afinal, contrariei as estatísticas.

A noite pode sugerir estar agradável,
mas e tu,
Lua, tu que corrompes as águas,
dize-me o tamanho da parcela de terra
que meus pés não pisarão.

Se a maré cheia sequestra areia
na praia dos meus dias,
onde deitar o pensamento
quando o cérebro estiver alagado?

E a resposta não é se eu sei nadar,
mas se os braços aguentam a travessia.

Se, com o tempo, aprendemos
que o amor suaviza e enfraquece o ar,
por que o ser crítico ainda respira com dificuldade?

O ar não está rarefeito,
enquanto fatos mortos exibem odor
em estágios de deterioração.

Olfato atua como vetor de resgate mnêmico.

Incomoda a lembrança da vala aberta na janela,
mas não para os que apontam
os dedos cegos de preconceito.

Para efeito de sobrevivência
do status da segregação:
pútrido, mas um mal necessário.

Entre becos e vielas,
eu fiz da bala perdida,
que insiste em caçar minha pele retinta,
uma semente que plantei
no solo das coincidências coercitivas.

Para que a raiz não se perca no fruto,
o nome dessa planta é favela.

E não apagues
o nome dos lugares que te moldaram.

Se nem o rio deve se esquecer
da nascente que o fez correr,
lembra-te do barro e do caminho,
ambos são teus.

Não prendas a respiração,
você do outro lado do espelho.

Sem oxigênio, o cérebro vira patê.

Digo: sem memória,
a vida perde motivação e foco
e passamos a ser suscetíveis,
massa de manobra.

Se você não conhece sua história,
facilmente se torna refém
dos que manipulam o presente
visando reger seu futuro.

Vejo que não há calmaria,
mas agora é tarde.

Meu barco já está no mar.

Talvez a saída seja agarrar-se
às raras lembranças,
peixes que saltam
à superfície do desterro.

Pesquei um.

A professora.
A turma da escola.
O primeiro amor.

Memórias que competem
e carregam em si traumas.

Pensar não dói, viajante,
é a ferida que você ignorou,
a negativa que não quis confrontar,
que te assombra até hoje.

Também não sou dos que gostam
de estar acorrentados ao passado.

O passado não escraviza,
planta a videira.

O presente faz a pisa.

E o futuro nos servirá o vinho
que ele próprio envelheceu.

O custo de colher sonhos maturados
é deitar-se na realidade
com os olhos vendados.

Então, minha amada memória,
submissa aos meus caprichos,
que profana meus delírios
e sensibiliza a racionalidade,
às vezes anjo, às vezes algoz,

tu, protetora ignóbil
do meu dogmático livre-arbítrio,
que despe com imagens do aqui jaz
para me seduzir
com um porvir resiliente,

dize-me:

Se no hoje a maré está pra peixes,
quantos futuros cabem
no porão deste barco?

Epílogo

Dedicatória à memória

Você é a evidência de que o tempo não nos molda,
ele nos devora.

E és também o aviso que me diz:

Sejamos passivos
ou façamos dos dias
naus de batalha para, como os filhos de Gaia,
romper o estômago da cronofagia ética
e escrever esse fratricídio libertário.

O poema agora é como seu barco:
não pergunta mais quantos futuros cabem,
porque já se tornou
o porão infinito
onde todos nós
guardamos
nossas
sementes
de
balas
não
disparadas.

Está pronto.

O mundo não precisa lê-lo,
apenas lembrá-lo.

Libertar, que será libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 10/08/2025
Alterado em 25/09/2026
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