

O bastardo racional
Paternidade visceral.
Entre moralidades tóxicas e boemias dilemáticas… Caríssimo genitor, saiba que não tenho orgulho. Talvez teria… mas a quebra do espelho, amigo, foi o marco que me fez entender que eu, um dia, seria a árvore e não a sombra da copa. Feliz Dia dos Pais… Se você é, deve, e por que não, sentir-se orgulhoso pela data. Diga pro seu ego: eu sou herói de alguém. E lembre-se: O mundo não é um faz de conta… E um corpo não chora somente porque a barriga ronca. Carinho e afeto alimentam e são a base, além da educação. Deveria haver um sentido lógico no ditado que diz: tempo é pai e não padrasto. Ou será que essa partilha do coloquialismo do patriarcado não me foi entregue? Seja como for, mesmo que afirmem que pai é aquele que cria, eu desdenho e digo: a ausência dói. E se não me deram o diploma de filho, não vou aumentar a prole para, com altivez, exibir um de pai. Claro que, se o tempo é pai do destino, é de se entender suas multifacetas, quase uma esquizofrenia. Mas nunca foi falta de identidade paterna, inquietude, fruto da lealdade maternal. Era uma vez um menino que foi corrompido, cúmplice das rodas de boemia, que observou, em cada parábola cantada das bocas de aventureiros, um ato falho. Autoridade desvinculada da moralidade pública. Pois é… sempre me questionei o porquê de tantos adultérios. Cada moeda tua era um tijolo que já não construía minha casa. O que você pensava ser amor e proteção era só mais um desejo de me exibir como troféu, de projeção, o moldar-me à sua imagem e semelhança. Cego, tu não moldava mais minha identidade. E eu não lamento em te desapontar, nego velho. Se não fui filho legítimo, serei um pai melhor, eu serei. Meus filhos estarão lá para celebrar o meu gurufim. Meus netos saberão quem eu sou. E, acredite, eu não sou apenas uma foto enigmática, desenhada por dedos que cresceram carentes de uma mão que os guiasse. Para cargo da sua consciência, minha mãe fez um bom trabalho. E, contrariando os traumas dela, sou músico, poeta e um bon vivant, para provar que o DNA fala mais forte, mas o caráter que molda é a criação. Ela me fez humano, um homem com sentimentos. O resto eu mesmo lapidei com a ajuda do tempo, que me ensinou: Narrar essa história é também se libertar do controle que ela ainda poderia ter. Às vezes, a ausência física é menos danosa do que uma presença vaidosa e opressora. Afinal, o tempo não é padrasto. Eu te vi, eu te conheci, mas não sou você. E minha história eu mesmo a escrevi. Por força maior da sua vida tempestuosa, o fruto se agarrou ao vento e foi plantar suas sementes longe da sua sombra. Libertar, que será libertador.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 10/08/2025
Alterado em 23/04/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |