

Carta para minha filha, no dia em que o amor bateu à porta
Minha filha,
hoje vi tuas bochechas corarem antes mesmo de as flores falarem. Vi tuas mãos segurarem um buquê como quem segura um segredo bonito que ainda não sabe dizer o nome. Confesso: meu coração tropeçou em si mesmo. Não por ciúme, não por perda, mas porque todo pai carrega esse instante como quem sente a terra se mover sob os próprios pés. Não é que outro homem chegou. É que o amor decidiu se multiplicar. E isso assusta, porque a gente passa a vida te protegendo do mundo e, de repente, é o mundo que te oferece flores. Perguntei em silêncio se ainda terei lugar no teu olhar, se minha voz continuará sendo porto ou apenas lembrança de cais antigo. Mas logo entendi: amor não se divide, se expande. Tu não estás deixando de ser minha. Estás sendo tua. E isso, minha filha, é a mais bonita das colheitas. Te vejo desabrochar como essas flores que agora repousam nos teus braços. Ainda frágeis, ainda aprendendo o peso do vento, mas já cheias de perfume próprio. O primeiro amor é assim: tímido, intenso, um tremor que ensina o coração a existir fora do peito. Não o diminua, não o apresse, não o esconda. Ele não veio para te ferir, veio para te ensinar a sentir. E se um dia doer, lembra: teu pai continua aqui. Não como dono, não como muro, mas como raiz. Sou o homem que te ensinou a andar e que agora aprende a te ver caminhar. Sou aquele que não perde espaço quando tu cresces, ganha horizonte. Ama, minha filha. Com cuidado, com verdade, com alegria. E nunca esqueça: antes de qualquer flor que o mundo te ofereça, houve um amor que te plantou e seguirá te regando por toda a vida. Com orgulho, com medo bom, e com amor que não passa, teu pai.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/02/2026
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