

Quaresma, memórias que assombram a inquietude
Quaresma.
Quando eu era pequeno na idade e no corpo, eu tinha medo. Mas o medo não vinha sozinho: trazia perguntas, trazia desconfiança das palavras ditas em voz grave pelos mais velhos que cercavam meu mundo. Mula sem cabeça, boitatá riscando o escuro, curupira com os pés ao contrário, cuca à espreita do sono, saci travesso, lobisomem escondido na lua cheia. Tudo isso morava nas frestas da minha infância, onde o real ainda negociava com o imaginado. Depois, a escola. E ali aprendi que não eram monstros à toa. Era folclore. Era gente explicando o mundo quando a ciência ainda não chegava. Cada criatura com sua função, cada medo como guarda do território, cada mito como linguagem do povo em pacto místico com a sobrevivência. “Só pode brincar até as cinco”, dizia minha mãe. Depois das seis, a rua não era lugar de criança. E eu obedecia não só por regra, mas porque a noite parecia escutar. Quaresma também era tempo de causos. Meu pai contava histórias à meia-luz, e eu aprendia que a palavra pode ser mais forte que a sombra. Confesso: muitas vezes preferi molhar o lençol a enfrentar o corredor escuro até o banheiro. Coragem também tem seu tempo. Hoje entendo. A Quaresma não era castigo, era pausa. Era convite ao silêncio, à escuta, à revisão do que somos quando o barulho do mundo diminui. Os mitos não queriam nos assustar. Queriam nos ensinar limites, cuidado, respeito à noite, à mata, ao outro. Queriam nos lembrar que crescer não é matar o medo, é aprender a atravessá-lo. Sexta-feira chega. E com ela, a Quaresma retorna, não mais como ameaça, mas como memória viva. Tempo de menos ruído, mais consciência. Menos julgamento, mais compaixão. Porque amadurecer, no fundo, é isso: olhar para trás com ternura, honrar quem nos contou histórias e seguir em frente, sabendo que todo mito carrega uma verdade esperando cuidado.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 20/02/2026
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |