D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

A Estrutura do Sextou, no Baile das Aspas
Caríssimo,
você, de fora dessa realidade que não lhe foi imposta
e que, de dentro do seu confortável preconceito,
me olha com o desdém
de quem não sabe que, aqui na comunidade,
o fim de semana não começa.
Ele sobrevive.

Baile das aspas…

A sexta chega como quem abre uma janela
depois de uma semana inteira de vento forte.

Ela não apaga os desafios,
mas lembra que até as tempestades
precisam descansar
no horizonte das especulações,
com pontos de luz traçantes.

Será que é tiro
ou fogos de artifício?

Nunca se sabe.
Mas, por precaução,
é melhor esperar para subir ou descer,
pois ela, a bala que o sistema pariu,
está perdida,
procurando um corpo involuntário que a adote.

E aqui, nesse caso,
a idade é o que menos importa.
Basta ser preto, pardo e pobre
para se tornar a nova vítima.

Ups…
Quis dizer, o novo abrigo
desse natimorto indesejado.

É muita resiliência
para que hoje a gente caminhe mais leve,
sem esquecer das batalhas que vencemos,
mesmo que a sociedade sequer desfrute
de cada gota do seu suor
ou de sua lágrima.

Não importa.

Porque resistir também é vitória.

Para uns, o fim de semana se resume
ao batuque da GRES Unidos da Herança Ancestral.
Afinal, é a única escola
em que a verba chega todo ano.

Claro.
O cartão-postal Carnaval não pode parar.
Yes. Temos bananas…

E, para outros,
o batidão no beat pulsante do jovem periférico,
que, entre uma rima e outra,
recebe os aplausos da opressão do Estado,
com cassetetes e coturnos,
como incentivo cultural.

Já vi vezes em que jogaram até bomba.

Bravo.
Bravo.
Sexta-feira não pode parar.

E os que têm a coragem de continuar,
mães e pais pretos dos terreiros,
cujo chão carrega a herança do acolhimento,
são obrigados a se calar.

Justo eles,
os guardiões da sabedoria de cuidar uns dos outros
através do mundo espiritual,
já não podem se ritualizar,
pois o dono do morro se converteu
e já reservou sua cruz
à extrema direita do Messias.

E gritam com autoridade:

Tem do preto e do branco.
Aleluia.
As vendas estão aumentando.

Pois é…
O novo normal.
Amém.

O pastor dos lobos com pele de cordeiro,
adepto do narcotráfico,
faz sua pregação com o volume no topo.

Som alto que ecoa em cada beco e viela,
ressoando no asfalto.

E, claro,
esse ruído não tira o sono de ninguém,
pois morador de favela só existe no trabalho,
gerando lucro ao patrão.

Decibéis que encobrem
o funcionamento da boca S.A.
Nem tampouco são motivo para intervenção do Estado.

E, mesmo que atrapalhem o happy hour da elite
do arranha-céu do outro lado do muro invisível
da cidade partida,
não vale desligar o sermão.

A noite cai
e o fim de semana já se senta em cada boteco,
tomando um trago
com um sorriso atento ao movimento.

Corre com as crianças
que brincam de pega-pega,
cientes de que,
no primeiro estampido de pólvora,
quem ficar parado o bicho pega
e quem correr a bala come.

Na comunidade é assim.

A gente aprende na prática
já no ventre de uma mãe,
solteira ou não.

Aqui não fazemos distinção.

Aqui a alegria é partilhada
entre o riso e o encontro no espaço comum.

E que a esperança não se canse
de nascer outra vez dentro de nós.

Resistimos juntos.

Com fé, com força
e com a certeza de que
ninguém atravessa os dias sozinho
quando existe união.

Na comunidade,
quando se diz o código “sextou”,
mesmo com todos os riscos,
a vida ainda nos chama para viver.

Aqui o fim de semana não começa.
Aqui o fim de semana sobrevive.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 14/03/2026
Alterado em 25/09/2026
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