

A Estrutura do Sextou, no Baile das Aspas
Caríssimo,
você, de fora dessa realidade que não lhe foi imposta e que, de dentro do seu confortável preconceito, me olha com o desdém de quem não sabe que, aqui na comunidade, o fim de semana não começa. Ele sobrevive. Baile das aspas… A sexta chega como quem abre uma janela depois de uma semana inteira de vento forte. Ela não apaga os desafios, mas lembra que até as tempestades precisam descansar no horizonte das especulações, com pontos de luz traçantes. Será que é tiro ou fogos de artifício? Nunca se sabe. Mas, por precaução, é melhor esperar para subir ou descer, pois ela, a bala que o sistema pariu, está perdida, procurando um corpo involuntário que a adote. E aqui, nesse caso, a idade é o que menos importa. Basta ser preto, pardo e pobre para se tornar a nova vítima. Ups… Quis dizer, o novo abrigo desse natimorto indesejado. É muita resiliência para que hoje a gente caminhe mais leve, sem esquecer das batalhas que vencemos, mesmo que a sociedade sequer desfrute de cada gota do seu suor ou de sua lágrima. Não importa. Porque resistir também é vitória. Para uns, o fim de semana se resume ao batuque da GRES Unidos da Herança Ancestral. Afinal, é a única escola em que a verba chega todo ano. Claro. O cartão-postal Carnaval não pode parar. Yes. Temos bananas… E, para outros, o batidão no beat pulsante do jovem periférico, que, entre uma rima e outra, recebe os aplausos da opressão do Estado, com cassetetes e coturnos, como incentivo cultural. Já vi vezes em que jogaram até bomba. Bravo. Bravo. Sexta-feira não pode parar. E os que têm a coragem de continuar, mães e pais pretos dos terreiros, cujo chão carrega a herança do acolhimento, são obrigados a se calar. Justo eles, os guardiões da sabedoria de cuidar uns dos outros através do mundo espiritual, já não podem se ritualizar, pois o dono do morro se converteu e já reservou sua cruz à extrema direita do Messias. E gritam com autoridade: Tem do preto e do branco. Aleluia. As vendas estão aumentando. Pois é… O novo normal. Amém. O pastor dos lobos com pele de cordeiro, adepto do narcotráfico, faz sua pregação com o volume no topo. Som alto que ecoa em cada beco e viela, ressoando no asfalto. E, claro, esse ruído não tira o sono de ninguém, pois morador de favela só existe no trabalho, gerando lucro ao patrão. Decibéis que encobrem o funcionamento da boca S.A. Nem tampouco são motivo para intervenção do Estado. E, mesmo que atrapalhem o happy hour da elite do arranha-céu do outro lado do muro invisível da cidade partida, não vale desligar o sermão. A noite cai e o fim de semana já se senta em cada boteco, tomando um trago com um sorriso atento ao movimento. Corre com as crianças que brincam de pega-pega, cientes de que, no primeiro estampido de pólvora, quem ficar parado o bicho pega e quem correr a bala come. Na comunidade é assim. A gente aprende na prática já no ventre de uma mãe, solteira ou não. Aqui não fazemos distinção. Aqui a alegria é partilhada entre o riso e o encontro no espaço comum. E que a esperança não se canse de nascer outra vez dentro de nós. Resistimos juntos. Com fé, com força e com a certeza de que ninguém atravessa os dias sozinho quando existe união. Na comunidade, quando se diz o código “sextou”, mesmo com todos os riscos, a vida ainda nos chama para viver. Aqui o fim de semana não começa. Aqui o fim de semana sobrevive.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 14/03/2026
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |