

Menino-canto, na dança do cotidiano
Vem cá, meu eu adulto,
vamos brincar de ser criança. Talvez fazer doer o peso do sem-fim com a lente de um menino-canto que o mundo obrigou a crescer. Que… O dia acorda antes de nós e já nos espera com as mãos cheias de tarefas, como um professor severo que conhece nossos atrasos secretos. Quando éramos crianças, o tempo era um quintal aberto. Corríamos descalços sobre as horas, sem saber que o relógio também se cansa. O mundo cabia no bolso de uma brincadeira, e a responsabilidade era apenas voltar para casa antes que o sol apagasse o céu. Hoje crescemos. Vestimos a urgência como quem veste um terno apertado. Carregamos nomes, contas e silêncios, e um inconsciente que, como diria Freud, sussurra lembranças enquanto fingimos controle. Somos adultos tentando organizar o caos com agendas e café forte. Mas há uma criança em nós que ainda empurra o pensamento para a beira do sonho, pedindo licença para imaginar futuros que não cabem nos relatórios do dia seguinte. Ela insiste em viver, mesmo quando o cansaço se torna idioma. O cotidiano nos exige firmeza, nos convoca à escolha, à postura, à resistência. E evoluir talvez seja isto: enfrentar a dureza das manhãs com a responsabilidade de quem sabe e a esperança de quem ainda descobre. Porque a resiliência não é apenas suportar o peso, é aprender a dançar com ele. É cair sem perder o desejo de levantar. É transformar a repetição dos dias num caminho secreto de superação. À noite, quando o escuro cobre o pensamento como um lençol antigo e necessário, descansamos das guerras invisíveis. Deitamos o medo ao lado do travesseiro e permitimos que o silêncio reorganize a alma. Querido eu crescido, agora que a dor não mora mais aqui. Já que o hoje não é mais quarto de chorar, vamos comer para sustentar o que vem com a luz, que o amanhã não chegue de estômago vazio, mas, se chegar, que o sol nasça dentro da fome que virou esperança. Despertemos! Amanhã o cotidiano voltará. E nós também. Um pouco mais adultos, um pouco mais crianças, um pouco mais vivos. E dançaremos, como o menino-canto que atravessa o tempo cantando o próprio caminho.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/03/2026
Alterado em 22/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |