D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Menino-canto, na dança do cotidiano
Vem cá, meu eu adulto,
vamos brincar de ser criança.
Talvez fazer doer o peso do sem-fim
com a lente de um menino-canto
que o mundo obrigou a crescer.

Que…

O dia acorda antes de nós
e já nos espera com as mãos cheias de tarefas,
como um professor severo
que conhece nossos atrasos secretos.

Quando éramos crianças,
o tempo era um quintal aberto.
Corríamos descalços sobre as horas,
sem saber que o relógio também se cansa.
O mundo cabia no bolso de uma brincadeira,
e a responsabilidade era apenas voltar para casa
antes que o sol apagasse o céu.

Hoje crescemos.
Vestimos a urgência como quem veste
um terno apertado.
Carregamos nomes, contas e silêncios,
e um inconsciente que, como diria Freud,
sussurra lembranças enquanto fingimos controle.
Somos adultos tentando organizar o caos
com agendas e café forte.

Mas há uma criança em nós
que ainda empurra o pensamento
para a beira do sonho,
pedindo licença para imaginar futuros
que não cabem nos relatórios do dia seguinte.
Ela insiste em viver,
mesmo quando o cansaço
se torna idioma.

O cotidiano nos exige firmeza,
nos convoca à escolha, à postura, à resistência.
E evoluir talvez seja isto:
enfrentar a dureza das manhãs
com a responsabilidade de quem sabe
e a esperança de quem ainda descobre.

Porque a resiliência não é apenas suportar o peso,
é aprender a dançar com ele.
É cair sem perder o desejo de levantar.
É transformar a repetição dos dias
num caminho secreto de superação.

À noite, quando o escuro cobre o pensamento
como um lençol antigo e necessário,
descansamos das guerras invisíveis.
Deitamos o medo ao lado do travesseiro
e permitimos que o silêncio reorganize a alma.

Querido eu crescido,
agora que a dor não mora mais aqui.

Já que o hoje não é mais quarto de chorar,
vamos comer para sustentar o que vem com a luz,
que o amanhã não chegue de estômago vazio,
mas, se chegar, que o sol nasça dentro da fome
que virou esperança.

Despertemos!

Amanhã o cotidiano voltará.
E nós também.
Um pouco mais adultos,
um pouco mais crianças,
um pouco mais vivos.

E dançaremos,
como o menino-canto
que atravessa o tempo
cantando o próprio caminho.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/03/2026
Alterado em 22/09/2026
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