

Prólogo do eco das flores perdidas
Era uma vez
o que ainda não estava pronto ou maquiado, mas tentou existir e seduziu a vida. A primavera chegou sem pedir licença. Na verdade, ela nunca pede. Ela explode… A neve que antes cobria os carros, as ruas, as memórias deu lugar às flores que cobrem os nomes. Aqui, o silêncio tem um peso diferente. Não é o silêncio quente das madrugadas do Rio. É um silêncio que grita em cores. Meio frio, meio quente. Um grito não educado. Olho pela janela e vejo meu reflexo misturado ao vidro. Um homem negro no país onde os sobrenomes parecem escolhidos em catálogo. Svensson. Andersson. Karlsson. E eu… Silva Arruda. E Silva cresce como espinho em terra úmida, visto por íris azuis que vigiam sem ver, feito praga que se instala. Erva daninha que toma posse, que habita sem ser convidada. Erva que não pede licença, que entra pela sebe e suga o que é alheio. Sim, eu sei. Cresce em cada degrau de amor, em cada mundo que se lança ao voo atrás do que tape o buraco entre dois opostos. E se atira ao ar atrás de algo que preencha o vácuo, faminto por aquilo que suture o rasgo entre as extremidades das margens. Às vezes penso que atravessei o oceano para caber dentro de um nome que não era meu. Outras vezes acho que atravessei para descobrir que nunca caberia em nome nenhum. Minha vida virou um aeroporto sem placas. Partidas sem despedidas. Chegadas sem pertencimento. Mas houve um tempo em que tudo parecia simples. Um tempo de tambor, suor e Carnaval. Um tempo em que eu ainda não sabia que amar também podia ser uma forma de exílio. Foi num verão, há muito tempo. E foi ali que tudo começou. É… Foi. Passada a intensidade do outono… A conivência do suor grosso cai, abrasando o acordo da umidade que inchou no verão dos gozos coletivos e latentes. A urgência de viver é o agora que sobra das flores quando as pétalas caem, perfumando o ar e alimentando o solo em que piso com os pés desnudos. É o que se guarda para depois no giro dos ritmos, pois o gelo nunca falha em voltar na ciranda das voltas, já que o inverno é certo como o osso. Ponto. Agora parece estar pronto.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 23/03/2026
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