D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Prólogo do eco das flores perdidas
Era uma vez
o que ainda não estava pronto ou maquiado,
mas tentou existir
e seduziu a vida.

A primavera chegou sem pedir licença.
Na verdade, ela nunca pede.

Ela explode…

A neve que antes cobria os carros,
as ruas,
as memórias
deu lugar às flores que cobrem os nomes.

Aqui, o silêncio tem um peso diferente.

Não é o silêncio quente
das madrugadas do Rio.

É um silêncio que grita em cores.

Meio frio, meio quente.

Um grito não educado.

Olho pela janela
e vejo meu reflexo misturado ao vidro.

Um homem negro
no país onde os sobrenomes
parecem escolhidos em catálogo.

Svensson.
Andersson.
Karlsson.

E eu…

Silva Arruda.

E Silva cresce como espinho em terra úmida,
visto por íris azuis que vigiam sem ver,
feito praga que se instala.

Erva daninha que toma posse,
que habita sem ser convidada.

Erva que não pede licença,
que entra pela sebe
e suga o que é alheio.

Sim, eu sei.

Cresce em cada degrau de amor,
em cada mundo que se lança ao voo
atrás do que tape o buraco
entre dois opostos.

E se atira ao ar
atrás de algo que preencha o vácuo,
faminto por aquilo que suture o rasgo
entre as extremidades das margens.

Às vezes penso
que atravessei o oceano
para caber dentro de um nome
que não era meu.

Outras vezes acho
que atravessei
para descobrir que nunca caberia
em nome nenhum.

Minha vida virou um aeroporto sem placas.

Partidas sem despedidas.
Chegadas sem pertencimento.

Mas houve um tempo
em que tudo parecia simples.

Um tempo de tambor, suor e Carnaval.

Um tempo em que eu ainda não sabia
que amar também podia ser
uma forma de exílio.

Foi num verão,
há muito tempo.

E foi ali que tudo começou.

É…

Foi.

Passada a intensidade do outono…

A conivência do suor grosso cai,
abrasando o acordo da umidade
que inchou no verão
dos gozos coletivos e latentes.

A urgência de viver
é o agora que sobra das flores
quando as pétalas caem,

perfumando o ar
e alimentando o solo em que piso
com os pés desnudos.

É o que se guarda para depois
no giro dos ritmos,

pois o gelo nunca falha em voltar
na ciranda das voltas,

já que o inverno é certo
como o osso.

Ponto.

Agora parece estar pronto.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 23/03/2026
Alterado em 24/09/2026
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