

Menino-canto: perdas sem ganhos
Na sonata do outrora,
o refrão mais memorável era tocado assim: Cresce, vira homem, menino. Teve dias que chorei a perda… A perda do que nunca tive. Da infância e da adolescência, pois essas nunca me pertenceram. Do peito que me alimentava, dos braços que me acalentavam e das mãos que me açoitavam em punição às minhas travessuras. Perdi a inocência de um lar belo e não violento. Era um pai que ditava as regras, até chegar o tempo em que uma mãe decidiu não mais se submeter. Ai, ai, perdi uma família. Tudo bem, superei a perda da separação, mas não a negligência paterna. Levou tempo para entender o porquê de tudo ir se perdendo no tempo em que minha vida se achava. Que minha vida se rachava… Descalços brincávamos, eu e a meninada, sem pensar no contexto de tudo que perdíamos. Do direito à saúde e à educação. O ir e vir… Mas só não perdemos a suspeição. Essa já nasceu estampada na pele de cor ancestral. Todo preto é suspeito até que prove o contrário. Junto com a adolescência, quase perdi a racionalidade, a palavra e a indignação. Nem perguntaram. Fui maduro antes de saber o que era ser adolescente. Ser arrimo da casa me entrou goela abaixo. Amadureci na faca. Junto com o meu primeiro ganho legítimo: o direito de tomar uma dura, com combo de esculacho físico, prova forjada e, de quebra, uma bala perdida. Desfiz-me da imagem do beco que era abrigo. E, ao despertar para a vida, perdi a vergonha e, com ela, a moral. Perdi o medo e, com ele, o temperamento. E a consequência foi a perda da razão. Vi sumir amigos e, com eles, o dinheiro que emprestei. Soltei sem querer amores. Perdi a memória e lá se foi a nostalgia. Meus sonhos. Meu lugar. Perdi meu chão. Só não perdi a cabeça, porque a desagregação social sequestrou. E, claro, ela está a prêmio. E o poliça que atirar melhor leva. Perdi…
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 25/03/2026
Alterado em 24/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |