D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Eu sou o Menino-canto
Para você que tem dúvida e se pergunta:
quem é esse menino-incômodo?

Isso não é só uma frase.
Muito menos conceito literário.
Sou personagem da realidade crua.
O arquétipo que a desigualdade moldou.
Mas não quis ser projeto de obra, capa de jornal.

Sociedade, você que complicou minha existência,
consegue entender a dimensão do monstro de asa castrada
quando meu tinido bate à sua porta?

Menino-canto:
o que pode ser lido,
mas talvez não decifrado.

Não.
O menino que canta,
o pseudonatimorto que é canto social.

Olha isso!

A herança que o pai do bastardo deixou:
margem, beco, esquina,
um traçado com mel e jogo de cartas.

Pois o suor do trabalho
o patrão já bebeu até a última gota.
Não conta nesse inventário.

Pobre.
Eu?

Sou o menino encurralado que virou eco.
Memória coletiva, denúncia.
Sobrevivi e superei o roteiro pré-escrito
por mãos elitistas.

Isso é muito poderoso?

Me diz você,
cria do berço dos privilégios cândidos,
de bocas que salivam filosofias lácteas.

Sim, você, dono da língua cirúrgica
de viés supremacista,
amputou da história
a trajetória da minha ancestralidade.

Minha biografia
não é profética.

Menino-canto.

Uma fase,
uma perda,
uma revolta,
uma memória,
uma sobrevivência.

Estrutura construída com negação de direitos.
É minha realidade.

O Menino-canto:

dói,
incomoda,
emociona,
provoca.

Não tenho permissão pra ser visível.
Não sou sentimental barato.
Sou a pedra que você jogou pro vácuo
e agora quebra seu telhado de vidro.

Necessário…

Para você, formiga operária,
que ecoa o grito da rainha déspota
ao ver o menino retinto correndo.

Pega ladrão, pega ladrão!

Sonora imperfeita do coro da multidão.
Nem sequer me perguntaram
o motivo da minha pressa.

Eu já nasci culpado.

Bate mais forte!

Veredito do covarde júri de rua.

Não foi linchamento.
Só justiça social do calçadão
sob a luz do preconceito
que ofusca o brilho do sol.

Pobre,
não!

Eu não quero sua pena.
Eu quero ser ocupação no seu consciente.

Quero ser arte
e que minha palavra seja universal.

Com a convicção de que:

todo leitor entenda.
Todo país respeite.
Toda época não me esqueça.

Sou o canto do menino pós-chacinas.
Sou semente anterior às colheitas
da Candelária e Vigário Geral.

Sou parágrafo de algum conto.
Sou os olhos da testemunha
da minha história.

Lembre-se de mim.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 26/03/2026
Alterado em 24/09/2026
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