

Eu sou o Menino-canto
Para você que tem dúvida e se pergunta:
quem é esse menino-incômodo? Isso não é só uma frase. Muito menos conceito literário. Sou personagem da realidade crua. O arquétipo que a desigualdade moldou. Mas não quis ser projeto de obra, capa de jornal. Sociedade, você que complicou minha existência, consegue entender a dimensão do monstro de asa castrada quando meu tinido bate à sua porta? Menino-canto: o que pode ser lido, mas talvez não decifrado. Não. O menino que canta, o pseudonatimorto que é canto social. Olha isso! A herança que o pai do bastardo deixou: margem, beco, esquina, um traçado com mel e jogo de cartas. Pois o suor do trabalho o patrão já bebeu até a última gota. Não conta nesse inventário. Pobre. Eu? Sou o menino encurralado que virou eco. Memória coletiva, denúncia. Sobrevivi e superei o roteiro pré-escrito por mãos elitistas. Isso é muito poderoso? Me diz você, cria do berço dos privilégios cândidos, de bocas que salivam filosofias lácteas. Sim, você, dono da língua cirúrgica de viés supremacista, amputou da história a trajetória da minha ancestralidade. Minha biografia não é profética. Menino-canto. Uma fase, uma perda, uma revolta, uma memória, uma sobrevivência. Estrutura construída com negação de direitos. É minha realidade. O Menino-canto: dói, incomoda, emociona, provoca. Não tenho permissão pra ser visível. Não sou sentimental barato. Sou a pedra que você jogou pro vácuo e agora quebra seu telhado de vidro. Necessário… Para você, formiga operária, que ecoa o grito da rainha déspota ao ver o menino retinto correndo. Pega ladrão, pega ladrão! Sonora imperfeita do coro da multidão. Nem sequer me perguntaram o motivo da minha pressa. Eu já nasci culpado. Bate mais forte! Veredito do covarde júri de rua. Não foi linchamento. Só justiça social do calçadão sob a luz do preconceito que ofusca o brilho do sol. Pobre, não! Eu não quero sua pena. Eu quero ser ocupação no seu consciente. Quero ser arte e que minha palavra seja universal. Com a convicção de que: todo leitor entenda. Todo país respeite. Toda época não me esqueça. Sou o canto do menino pós-chacinas. Sou semente anterior às colheitas da Candelária e Vigário Geral. Sou parágrafo de algum conto. Sou os olhos da testemunha da minha história. Lembre-se de mim.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 26/03/2026
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