

O muro sabe que o buraco não é mais embaixo
Você, olhos que tudo rega com lágrimas de um lamento abissal.
Você viu o buraco no muro? O pobre arrimo que sustenta o peso da encosta para não derrubar uma avalanche de ais. Não nos dias que a plateia almeja um recital de pantomimas. Abrigo de contenção, pele de limite aos que desanuviam na sua paragem. Esses que se banham no sol com a sombra ainda grudada no osso. A fenda, essa conhece o que se escondeu sobre, o muro que brilha por fora para sangrar por dentro sem que ninguém veja. Se o vazio guarda o segredo, a cicatriz nas vigas não esquece, ela denuncia que a boca escura da terra lembra. Muralha que treme, mas finge que não… Tremia antes do abalo. Ninguém viu, mas sabia que foi erguido para não cair. Barreira que balança na dança, verga sem nunca cair. Cai, um dia cai… E o buraco estremece quando o muro lembra que pode se abrir. Deixa a ferida falar. Cospe o nó que te prende por dentro. Rompe o silêncio que te engoliu. Grita como quem finalmente aprendeu a não se desculpar por existir. Que a voz rasgue o que te calaram. O abismo carrega o peso do que se jogou nele. Mas a falha no muro nunca perdeu a memória. Mas o buraco está lá. E, mesmo que o muro, à primeira vista, pareça forte, o buraco observa tudo enquanto conspira para o declínio dessa cortina de pedra. Muro não cresce do nada, assim como um forte, se ele é colônia de férias do medo. Território ácido das conveniências. Sentimentos por sentimentos, tijolos por tijolos, embolsado com coragem e frieza, e a fundação, essa sim, é bem funda, bem assentada. Rasa demais, o muro bambeia. Balança, mas não cai! E o buraco sussurra, como se fosse o mestre de obra do subconsciente: Cai, um dia cai… A greta na cal, a tal fresta do tapume, esse ponto de fuga do cômodo, desabrocha sem ruído, sem barulho de trinca, sem aviso. Só se alastra… O muro segue de pé. Pergunte aos que tentaram, no peito e no grito. Como lobos do conto da carochinha, sopram, sopraram e ficaram sem ar. Pois é furo de drenagem, assim te reconheço: recusas o peso que incha por dentro, seguras o que ameaça se abrir, sobretudo onde o terreno é úmido de ditos que viram bolor e vão apodrecendo o alicerce. É… Para desgosto dos obscurantistas, que preterem orbitar a ética da coluna que nunca cede. Percebes que ainda ficou pedra sobre pedra. Encolhe os ouvidos e vem cá. Tem uma coisa que só o escuro guardou da luz. Aproxima a tua frágil distância, que vou te passar o que não coube na garganta. Há algo que o muro não aguentou. O buraco já sabia eu já sabia e agora é tua vez. O muro ainda está de pé. E o buraco ainda pulsa.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 28/03/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |