

O muro e o pacto com o que se é
Há um ruído anterior ao gesto,
um quase que não se completa e, ainda assim, insiste. Não é dor, mas também não é ausência. É algo que se instala sem pedir autorização ao corpo. O que vibra ali não busca saída, busca permanência. Como se soubesse que existir já é uma forma de romper. Há camadas que não se tocam, mas se reconhecem no atrito. E, nesse ponto exato, onde tudo poderia ceder, algo escolhe não cair, não por resistência, mas por já não depender de forma alguma. Mas quer o peso de ser, habitar a umidade do tempo sem cancelar o que escorre pelos cantos. Quer ser na viscosidade, sem pedir trégua ao que ferve o chão que encharca. Mesmo sabendo que o molhado é certo, há um limite que ele não atravessava, mesmo sem testemunhas. Probidade é palavra antiga, mas o gesto era contemporâneo daquilo que não se faz, mesmo podendo. O osso que não se dobra, a vergonha que vem antes do ato. Nome que se carrega sem precisar dizer, o que sustenta quando tudo cai. E no último trato que não acalma o corpo, aprende o que o grito não sabia. Dói deixar de mentir. O que se perdia no outrora encontra algo que nunca foi dito no porvir. Não se fala sobre o que somos. Falemos sobre o que nos impede de deixar de ser. E no salto entre o tempo e o arrimo, maturidade finalmente pousa no chapim que ousou tapar o buraco. Mesmo submerso, o buraco ainda pulsa.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 29/03/2026
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