

Primeiro de abril sem calendário
Dizem que hoje é o dia da mentira,
como se ela tivesse hora marcada para sair à rua sem pedir desculpa. Mas há verdades que acordam vestidas de ficção e atravessam o dia com naturalidade, sentam à mesa, assinam presença no relógio e chamam de rotina o que nunca foi inteiro. Rimos do engano anunciado, do truque que se revela no fim, enquanto sustentamos, com seriedade exemplar, acordos invisíveis que ninguém lembra quando começou a aceitar. Há mentiras que não ferem, apenas organizam o caos. Como dizer “está tudo bem” quando o corpo negocia silêncio para não desabar no meio da tarde. Outras são abrigo. Pequenas construções de sobrevivência erguidas com palavras mansas, onde a gente repousa para continuar sendo amanhã. E há as que se repetem tanto que ganham textura de verdade, circulam como moeda corrente, compram certezas e vendem pertencimento. Primeiro de abril passa. A piada se encerra, as máscaras são guardadas no mesmo lugar de sempre. Mas fica um ruído baixo, anterior ao gesto, lembrando que talvez não seja sobre mentir, mas sobre o quanto suportamos saber e mesmo assim seguir. No fim, cada um assina sua própria versão dos fatos com a caligrafia que dá conta. E chama de vida o que foi possível dizer sem quebrar por dentro.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 01/04/2026
Alterado em 29/05/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |