D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Liturgia da Carne: o banquete dos que esqueceram o amor
Hoje não há salvação na mesa.

Só embalagens.
Só promessas embrulhadas em papel brilhante,
com validade vencida na primeira mordida.

Chamam de Páscoa.

Mas o que se celebra
quando o corpo do outro vira símbolo
e o símbolo vira produto
na prateleira mais iluminada da vitrine?

O cordeiro não sangra mais.
Foi higienizado.
Transformado em oferta.
Em campanha sazonal.

E você compra.

Compra o gesto,
compra o perdão,
compra a ideia de amor
como quem leva dois por um
e ainda acha que fez um bom negócio.

Mas não há ressurreição no carrinho.

Há silêncio.

Há olhos desviados
na calçada onde alguém ainda espera
um pedaço de qualquer coisa
que não seja desprezo.

Você passa.

Com pressa.
Com sacolas.
Com a consciência anestesiada
pelo açúcar
e pela conveniência.

Não há cruz.

Há vitrines.

Não há sacrifício.

Há promoções.

E, no lugar do milagre,
um código de barras
legitima a ausência
de tudo aquilo
que você insiste em chamar de fé.

Amar virou estética.

Empatia, discurso.

E o próximo…

um detalhe que atrapalha
a fluidez do seu caminho
até a fila do caixa.

Hoje não há redenção.

Há consumo.

E o único sepulcro aberto
é o daquilo que você enterrou
quando aprendeu
a substituir o gesto
pela compra.

A Páscoa passa.

Mas você não atravessa.

Permanece.

Inteiro.
Intacto.
Intocável.

E vazio.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/04/2026
Alterado em 23/09/2026
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