

Liturgia da Carne: o banquete dos que esqueceram o amor
Hoje não há salvação na mesa.
Só embalagens. Só promessas embrulhadas em papel brilhante, com validade vencida na primeira mordida. Chamam de Páscoa. Mas o que se celebra quando o corpo do outro vira símbolo e o símbolo vira produto na prateleira mais iluminada da vitrine? O cordeiro não sangra mais. Foi higienizado. Transformado em oferta. Em campanha sazonal. E você compra. Compra o gesto, compra o perdão, compra a ideia de amor como quem leva dois por um e ainda acha que fez um bom negócio. Mas não há ressurreição no carrinho. Há silêncio. Há olhos desviados na calçada onde alguém ainda espera um pedaço de qualquer coisa que não seja desprezo. Você passa. Com pressa. Com sacolas. Com a consciência anestesiada pelo açúcar e pela conveniência. Não há cruz. Há vitrines. Não há sacrifício. Há promoções. E, no lugar do milagre, um código de barras legitima a ausência de tudo aquilo que você insiste em chamar de fé. Amar virou estética. Empatia, discurso. E o próximo… um detalhe que atrapalha a fluidez do seu caminho até a fila do caixa. Hoje não há redenção. Há consumo. E o único sepulcro aberto é o daquilo que você enterrou quando aprendeu a substituir o gesto pela compra. A Páscoa passa. Mas você não atravessa. Permanece. Inteiro. Intacto. Intocável. E vazio.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/04/2026
Alterado em 23/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |