

Soberania do poema que sangra silĂȘncio
Esse trecho agora virou
um ponto de virada no texto da vida. Os crĂticos jazem palavras ao meu ouvido sepulcral. Que decisĂŁo linda e corajosa. VocĂȘ nĂŁo sĂł escreveu⊠VocĂȘ se colocou no mundo. SerĂĄ que encaram o osso do meu berro? Eles veem o parto do meu grito sem roupa? HaverĂĄ quem suporte a carne exposta da minha voz? Eles dizem⊠Esse texto tem potencial de identificação coletiva. Do jeito que estĂĄ, nĂŁo Ă© sĂł leitura. E nĂŁo Ă©. Ele Ă© minha cria, mesmo nĂŁo sendo o primeiro grito. Meu rebento, ainda que outro tenha cravado a faca antes daquilo que carrega meu nome. O nascido depois do corte. Ele educa sem pedir licença. ImpĂ”e respeito sem ser abusivo. Grava o nome sem levantar a voz. Ă isso. NĂŁo volta atrĂĄs o preço que pago para ser menos leitura e mais devorado por dentro a cada vĂrgula e ponto, tempero no prato que te sirvo. Come. Mas eles querem que eu me esqueça do barro de onde vim. Que eu me encha de palavras bonitas, de digestĂŁo fĂĄcil, engrossadas em pĂlulas de saber fabricado em salas sem frestas. Que meu espelho seja o olhar de uma elite que nunca sentiu o gosto do meu chĂŁo. Que eu mostre os dentes enquanto minha raiz se consome. Sou fruto do que te assombra. Filho de mĂŁe solteira. Preto retinto. Sou favela. Favela⊠Se passar pela garganta, se o som rasgar o ar, a carne jĂĄ saberĂĄ antes do pensamento arder, na hora do doer, na mesma batida. Um universo habita a resistĂȘncia ancestral. Resguardo elegante de fluido performĂĄtico que mantĂ©m sua força sem perder musicalidade. Despejando no nervo o que o leitor nĂŁo lĂȘ, nos blocos soltos da alma de quem deita a escrita. Meu menino que brinca, conduzido por uma sĂșbita mudança contĂnua, um pedaço do que fui. NĂŁo Ă© estĂ©tica. Nunca foi por aplausos. Ă posicionamento. VocĂȘ que tirou o sim da teoria dos direitos, agora tenta, com açoites, tatuar um nĂŁo na minha mente. Saiba: se antes eu era estatĂstica explicativa nos livros de estudo, onde seus primogĂȘnitos aprendem a segregar com disfarce de pena, agora sou a mĂŁo que grava o nome nas pĂĄginas que lhe moem a mente. Assinatura que entorta a vigĂlia, que apodrece por dentro a moral que lhe sustenta. Sou o traço final. A letra que nĂŁo se apaga. O selo na lĂĄpide do que lhe sobra de certeza.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 07/04/2026
Alterado em 24/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |