

Eis aqui meu fruto, a poesia.
No começo era o fio,
dois olhos que pesam o movimento, que soldam a hora no peito do instante que o sopro levou. Esse par de Ăris que nĂŁo pisca, que lambe o gesto e congela o instante que a respiração roubou. Entre poeta e corpo pĂĄlido, sem vida, do papel, existe um cĂ©rebro que controla a narrativa bem antes da letra que habita uma palavra louca. Sim, nesse coito literĂĄrio, ele insiste em ejacular palavras que fecundam, como feto que ganha forma no amadurecimento do seu tempo. E isso Ă© belĂssimo. Escolhe a medida certa, vocĂȘ que brinca de ser Deus nas linhas que anseiam deitar-se contigo. Porque a boca que o poema abre nĂŁo Ă© para mendigar, em eco, que o sujeito salve o mundo. Ă saber que o seu instante jĂĄ ardeu enquanto vocĂȘ lia no intervalo que lhe restou antes de a pĂĄgina virar silĂȘncio. Sangue do meu pensar. Carne da minha escrita. JĂĄ nasce com aquilo que eu nĂŁo tenho: tĂtulo. Pode, sim, ter algo de sabedoria ou declaração de amor. Ăs vezes, meu menino Ă© quase espiritual, mas nunca se veste de samaritano para transformar-se em moralismo. Nunca. O fruto apodrece onde a copa alcança. E a obra nĂŁo tem doutrina para vender. O que nasce de mim nĂŁo prega sermĂŁo. Ă um fecho de responsabilidade humilde. O traço Ă© breve, eu sei. Mas nem sempre Ă© estilhaço. NĂŁo se quebra. Desce por veias de razĂŁo e de carne. Pequeno risco que nĂŁo Ă© ruĂna. Corre por trilhos de lĂłgica e de gozo. Ăs vezes, peripĂ©cias na abertura metafĂsica do ser. E, no papiro, dançam trechos da universalidade do pensar que alcançam mentes dispostas a racionalizar o que lhes toca. Racionalidade⊠O convite a ver os ossos antes mesmo que a carne dos dedos pulse eloquĂȘncias, enquanto a lĂngua calada jaz numa golada de cafĂ© quente. Se este final conversa perfeitamente com o tĂtulo? Quem sabe? Se ainda nĂŁo for o que deseja, saiba que o mesmo corpo que me fez inclinar sobre o papel agora te chama a debruçar-te sobre o que nasceu, como Ășltimo gesto de habitar o que foi dito. Agora te inclina a colher leitura. Se o tĂtulo manda viver, o final responde: viver Ă© fazer o tanto que te cabe, deitar estas linhas para saciar meu vĂcio. Hum⊠Por deveras penso ser eu um necromante, ao trazer de volta Ă vida fragmentos de ĂĄrvores, imbuindo-lhes meus devaneios. Mas sĂł por deveras
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 12/04/2026
Alterado em 29/05/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |