

Exorcizando Orfeus
Hoje acordei com o peso do que não volta.
Comecei a costurar o sentido ainda banhado pelo pranto da lua. Gravado no torpor que o antes bordou, nem o sonho ficou para ver, porque guarda um sumo tão denso… Quando se vestiu de aurora, rachou meu meio de ser. Sepultei o escuro sem saber. A perda não veio de fora. Veio de mim. Já carregava um incômodo entranhado… Minha consciência deveria aquietar-se nos braços de Hypnos. Desvairada ninfa nas areias de Morfeu, brincando ao som de um tempo infindo. Salão atemporal: ontem, hoje e amanhã se constroem e se apagam ao despertar do galo. Já tatuado em minha trajetória, quando se paramentou de alvorada, feriu o osso do meu destino. O gosto amargo na língua sussurrou: “Levanta, que a vida está posta para quem caminha com a realidade…” Só depois de lavar-me a face descobri, com a frieza da água, que o algoz era eu. Limpei os olhos bem antes de a fragrância cômoda, preguiçosa, exalar nas palavras que me quebram o jejum de silêncio matinal. Ainda que crua, come-se com verdades secas e ásperas. Sim, eu fui obrigado. Confesso… Eu mesmo enterrei a noite com o primeiro beijo ácido da manhã rotineira.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/04/2026
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