

Primeiro beijo ácido da manhã rotineira
Bates à minha porta,
oferendando um beijo. És maravilhosa, porque não romantizas esse despertar. E não dizes apenas que a noite acabou. Apenas quebras as algemas. Ai de mim, um sonhador… Ah, manhã! Não vens como redenção luminosa e pura. Vens ácida, que eu te quero nua e crua. Rotineira. Quase amarga. De tudo que está contido no verbo existir, és tu a eloquência que me excita. Não estás acima, nem fora: és a travessia que atravessa o tempo, sem medir as entrelinhas do que se sente. Transformas sonhos em ritos, não apenas em confissão. Porvir reflexivo que se lança, sem sugerir que há algo no próprio gesto de olhar a vida. Não entregas tudo à porta. Amadureces no corpo o impulso de olhar para trás. Drama íntimo, dimensão arquetípica que não precisa ser combatida. Tenha a certeza: és a rotina pela qual, em todas as noites, rogo que venhas libertar-me dos meus sonhos, que nunca chegam ao fim… ao romper da alvorada.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 17/04/2026
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