

Tribunal de carne e silêncio
Com as devidas vênias…
Quebro a cabeça como quem abre um coco. Me embriago de memórias… Pois aqui começa minha caminhada nesse deserto onde as lembranças evaporam com o calor da idade. Sento-me diante de mim como quem julga o próprio sangue. Meu corpo… réu confesso de todos os impulsos, latejando vontades que não pedem licença, gritando desejos com a língua dos nervos. E eu, cabeça nas mãos ou mãos na cabeça… já nem sei quem sustenta quem. Aponto. Acuso. Condeno. Mas o dedo que aponta é feito da mesma carne que deseja. Há um abismo entre o que sinto e o que permito existir. Meu corpo quer incendiar o instante, rasgar o agora com dentes e suor, fazer da vida um grito quente ecoando nas paredes do tempo. Minha consciência… fria como lâmina de madrugada, sussurra culpa como se fosse autoridade, me veste de silêncio e chama isso de controle. Mas quem controla quem? Se sou eu quem pensa por que é o corpo que sangra primeiro? Se sou eu quem decide por que é o desejo que sempre chega antes? Arranco de mim a cabeça como quem tenta calar o juiz, mas o corpo continua… lembrando. Cada músculo é memória. Cada pulso é insistência. E a consciência… essa covarde elegante, vive sentada no trono do depois, explicando aquilo que já aconteceu. No fim não há absolvição. Só esse acordo silencioso entre o que sou e o que nego. Um corpo que pede e uma mente que finge não ouvir. E no meio disso tudo… eu. Inacabado. Indomado. Irreconciliável. Nu, diante do júri das atitudes e das consequências, que já proferiram seu veredito. Ainda tenho sede, mas as memórias são escassas. Já não temo, se as palavras me escapam entre os dentes, involuntárias.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 02/05/2026
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