

Se ainda Deus quiser falar comigo
Você que está do outro lado do espelho…
Eu não estou de joelho chorando pelo leite que goteja das bocas que salivam a Teologia da Prosperidade. Mas a fé alheia, submissa e performática, me faz entender o porquê de muitos aleluias só habitarem a troposfera. Ai, ai… améns que não sobem no telhado do vento. Talvez a misericórdia de Deus não esteja no amor, mas na compreensão. Pois, se assim não fosse, o ato na cruz seria nulo. Amar, até o carrasco ama o metal que afia a lâmina antes do corte. Compreender… ah, compreender exige descer ao abismo sem a arrogância de quem aponta o dedo do alto da própria moral. Talvez o céu não tenha se aberto por pureza humana, mas pelo cansaço divino de assistir criaturas famintas tentando esconder os dentes atrás de orações decoradas. Porque amar o belo é fácil. Difícil é compreender o que sangra, o que trai, o que mente e mesmo assim continua carregando o peso de existir. A cruz talvez nunca tenha sido sobre perfeição. Talvez tenha sido sobre suportar o cheiro da carne humana apodrecendo em culpa, ego, medo e desejo. E ainda assim… não virar o rosto. Pois há homens que rezam de joelhos enquanto crucificam alguém com a língua em pé. Há quem pregue bondade com as mãos limpas de sangue, mas sujas de omissão. E há aqueles que confundem santidade com a covardia de nunca encarar o próprio reflexo nu. Talvez Deus compreenda porque conhece a matéria fraca da qual fomos moldados. Barro sonhando ser eterno. Carne tentando domesticar o vazio. Consciências feridas vestidas de razão. Por isso a misericórdia talvez exista. Não porque merecemos amor, mas porque até o divino deve ter entendido o desespero de estar vivo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/05/2026
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