

O rei vagabundo e a vida ressentida
Todos têm direito
de sorrir neste mundo… Foi o que ouvi da fumaça cansada de um samba antigo que girava baixo no fundo do quarto. Mas hoje o meu peito não veste fantasia. Hoje a noite mastiga devagar o resto da boa vontade que deixei espalhada pelos corredores da esperança. Sou um rei vagabundo… não por não possuir trono, mas por carregar responsabilidades demais para um coração que já anda descalço por dentro. Ontem eu falava de mães feridas, de mulheres sobrevivendo ao peso de mãos violentas, tentando erguer um evento como quem acende vela no meio da ventania. E no tropeço de um nome esquecido perdi alguém que já caminhava com as malas prontas para abandonar a estação. Eu sei… o esquecimento dói. Principalmente quando a alma anda cansada de se sentir invisível. Mas há dores que conversam, e há dores que procuram sentença. A minha hoje anda sentada na calçada bebendo culpa morna em copo americano rachado. Porque quem organiza sonhos coletivos quase sempre vira réu das frustrações individuais. E talvez ela nem tenha saído pela ausência do nome. Talvez já estivesse ferida antes, silenciando rachaduras atrás da parede da responsabilidade. Mas ainda assim… covardia também é deixar o barco quando a maré ameaça engolir os que ficaram. Ai, ai… como pesa ser o forte da sala quando ninguém percebe que o forte também sangra. No fundo, o rei vagabundo é só alguém tentando manter acesa a fogueira da dignidade com os bolsos cheios de cansaço e a consciência tropeçando em nomes que não cabem na pressa do coração. Hoje não quero aplausos. Nem absolvição. Só queria que algumas pessoas entendessem que até quem luta pelos outros às vezes perde a batalha contra o próprio desgaste. E talvez seja isso a vida ressentida: um lugar onde quem mais tenta unir termina dormindo sozinho com a culpa de não ter sido suficiente.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 07/05/2026
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