

O Primeiro Espelho
Espelho quebrado que abominei,
seu reflexo em cada passo da minha estrada. E vocĂȘ nunca esteve lĂĄ em sentimentos. Seus cacos entre rodas de samba e camas de amantes. Para minha mĂŁe dizia: â Vou pescar. E a fĂȘmea, com voz de pastora de anca quente, dizia: â Leva seu trofĂ©u, para ver se ele aprende algo. No gesto da palavra: interação entre pai e filho. Na intenção da locutora, apenas a tentativa de castidade em um homem de mulher traĂda. Mal sabia ela que eu, desde cedo, aprendia com o mestre da toxicidade misĂłgina. Aprenda: o verdadeiro alfa tem que saber fazer uma fĂȘmea sucumbir em gemidos. Ăs vezes de socos e tapas. Ăs vezes de gozos em quartos que nĂŁo isolavam os ruĂdos⊠Ele nunca se importou com a proteção da minha infĂąncia. SĂł queria criar mais um monstro no espelho. Bom, aprendi desde cedo que o silĂȘncio tem um preço, e o meu custou caro para ele, quando comecei a me entender menino-capital no mundo dos homens. Ah! Espelho estilhaçado que nunca se importou se eu sofria ao me fazer cĂșmplice da tristeza da que me amamentou⊠quando me fez dançar com o pranto de quem me amou. Espelho em cacos que nunca sangrou por me treinar no culto do adultĂ©rio. A dona da dor⊠que me fez confidente de suas lĂĄgrimas. FĂȘmea que o juramento cuspiu para fora do ninho. Ela, com seus ais, me entregou um martelo de traumas. Hoje, o que quebrou de vocĂȘ Ă© pĂł, que a direção da minha moral adversa espalhou no limbo de minhas memĂłrias. Porque nunca houve pescarias? SĂł rodas de samba e serestas? Suas noitadas na folia, minha escola de dois gumes. Estilhaços. Fumaça que o traço da minha bĂșssola levou em silĂȘncio, atĂ© que o norte do meu sopro o desfez.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/06/2026
Alterado em 05/06/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |