

Antes de Saber Meu Nome
No princĂpio era um sĂȘmen,
e o sĂȘmen fecundou o Ăłvulo, e o feto surgiu. Chorou ao nascer, como se jĂĄ soubesse da sina que lhe esperava. E o que lhe fez chorar? Foi um tapa na bunda, seguido de um grito: â Ă homem! Que OxalĂĄ lhe abençoe, mofio⊠E dizem que homem nĂŁo chora. Mas eu chorei, como reflexo das boas-vindas violentas. TambĂ©m tossi, ao respirar o ar carregado da fumaça do cachimbo da preta-velha parteira no ilĂȘ dos meus ancestrais. A preta-velha era VovĂł Maria Conga, contou-me anos depois minha mĂŁe, que, com orgulho nos olhos, dizia: â Meu derradeiro⊠Minha rapa do tacho tem dendĂȘ. Mas logo depois veio o olhar de decepção e tristeza quando perguntei: â Nasci quatro dias antes da data de SĂŁo Benedito. Por que me chamo Jorge? â Porque vocĂȘ Ă© guerreiro⊠A resposta foi seguida de um olhar que marejou. Finjo acreditar no silĂȘncio depois da resposta. Como se eu nĂŁo soubesse a verdade. Meu pai mentiu sobre o nome dele. Ele mentiu que era casado. E me deu um nome falso como um trofĂ©u de bastardo, seguido do seu sobrenome: Arruda. Quem eu era antes que me nomeassem? Se o relato da que me pariu nĂŁo ajudasse a revelar a força ancestral que carrego em mim. Talvez eu ainda me visse, hoje, como a cria de uma lĂĄbia vitoriosa de um touro imundo, numa manhĂŁ em que o samba fingiu que era inocente. O rebento de uma fisgada triunfal de um macho que sabe pescar com rimas e versos, numa alvorada de serpentina. Pois é⊠Foi no depois do silĂȘncio da eufĂłrica bateria da Unidos do DĂĄ que NinguĂ©m Ă© de NinguĂ©m que os dois sambaram no prazer um do outro⊠Que som eu era antes de virarem meu choro em letra? Pois é⊠Sou ritmo de folia que gestou sete meses. Sou amor de carnaval que durou menos que uma gestação. EpĂlogo: AgĂŽ, preta-velha. O que pastava em mim antes da lĂngua aprender que ferida ainda nĂŁo sabia seu nome. OxalĂĄ me abençoou⊠Sim, e muito. Mas foi Exu que me guardou em cada encruzilhada. E Ibeji que dançou comigo no escuro do meu faz de conta, nas horas em que eu era vidro e plateia das traiçÔes boĂȘmias do meu espelho. E nas sombras correram comigo no vĂŁo da minha mentira. Nos tempos em que eu espiava e era cĂșmplice das falcatruas alcoĂłlicas do formado por cacos. O falso Jorge. O que tinha nome de AntĂŽnio, mas nunca foi santo nem casamenteiro. O que quis fazer de mim o seu reflexo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/06/2026
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