D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos Ă© minha histĂłria em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Antes de Saber Meu Nome
No princĂ­pio era um sĂȘmen,
e o sĂȘmen fecundou o Ăłvulo,
e o feto surgiu.

Chorou ao nascer,
como se jĂĄ soubesse da sina que lhe esperava.

E o que lhe fez chorar?

Foi um tapa na bunda,
seguido de um grito:

— É homem!

Que Oxalá lhe abençoe, mofio


E dizem que homem nĂŁo chora.

Mas eu chorei,
como reflexo das boas-vindas violentas.

Também tossi,

ao respirar o ar carregado
da fumaça do cachimbo
da preta-velha parteira
no ilĂȘ dos meus ancestrais.

A preta-velha era VovĂł Maria Conga,
contou-me anos depois minha mĂŁe,

que, com orgulho nos olhos, dizia:

— Meu derradeiro

Minha rapa do tacho tem dendĂȘ.

Mas logo depois
veio o olhar de decepção e tristeza
quando perguntei:

— Nasci quatro dias antes da data de São Benedito.
Por que me chamo Jorge?

— Porque vocĂȘ Ă© guerreiro


A resposta foi seguida
de um olhar que marejou.

Finjo acreditar no silĂȘncio
depois da resposta.

Como se eu nĂŁo soubesse a verdade.

Meu pai mentiu sobre o nome dele.

Ele mentiu que era casado.

E me deu um nome falso
como um troféu de bastardo,

seguido do seu sobrenome:

Arruda.

Quem eu era antes que me nomeassem?

Se o relato da que me pariu
nĂŁo ajudasse a revelar
a força ancestral que carrego em mim.

Talvez eu ainda me visse,
hoje,
como a cria de uma lĂĄbia vitoriosa
de um touro imundo,

numa manhĂŁ
em que o samba fingiu que era inocente.

O rebento de uma fisgada triunfal
de um macho que sabe pescar
com rimas e versos,

numa alvorada de serpentina.

Pois é 

Foi no depois do silĂȘncio
da eufĂłrica bateria
da Unidos do Då que Ninguém é de Ninguém

que os dois sambaram
no prazer um do outro


Que som eu era antes de virarem meu choro em letra?

Pois é 

Sou ritmo de folia
que gestou sete meses.

Sou amor de carnaval
que durou menos que uma gestação.

EpĂ­logo:

AgĂŽ, preta-velha.

O que pastava em mim antes da lĂ­ngua aprender
que ferida ainda nĂŁo sabia seu nome.

Oxalá me abençoou

Sim, e muito.
Mas foi Exu que me guardou em cada encruzilhada.

E Ibeji que dançou comigo no escuro do meu faz de conta,
nas horas em que eu era vidro e plateia das traiçÔes boĂȘmias do meu espelho.

E nas sombras correram comigo no vĂŁo da minha mentira.

Nos tempos em que eu espiava
e era cĂșmplice das falcatruas alcoĂłlicas do formado por cacos.

O falso Jorge.

O que tinha nome de AntĂŽnio,
mas nunca foi santo nem casamenteiro.

O que quis fazer de mim o seu reflexo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/06/2026
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