D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

O Menino que Conversava com Sombras
Nunca tive medo de sombras,
pois já conversava com elas desde os primórdios.

A sombra do espelho ausente,
que me ensinou a superar meus medos.

A entender que o contrário
do que ele me mostrou na prática,
enquanto dizia com orgulho:

Verdadeiro homem tem várias mulheres para satisfazê-lo.

Pobre infeliz.

Morreu moribundo e solitário.

Mas eu e o que não volta,
a ferida que me segue,
nos provamos sem trégua.

Eu e o vulto do que me assombra.

Aquele que,
mesmo eu querendo,
para alegria ou decepção,
não volta.

O peso que me nomeia,
e nos digladiamos
no mesmo vão
do meu arrastar.

Pelo meu direito de querer ser,
eu,
um espelho inteiro,
e curar as raízes das trincas
no reflexo do vidro quebrado.

O único fragmento de sua sombra
com o qual dialogo é:

Se ele me visse hoje,
teria orgulho de mim?

Porque ainda preciso da aprovação
do que foi reprovado?

Não sei…

Talvez queira eu ser o espelho
onde ele, tardiamente,
aprendesse a ser reflexo.

Imagine!

O paradoxo da imagem especular…

O filho é o instante
em que o pai se extravia.

E nessa fauna imprecisa,
onde o claro da existência dele é ferida,
a sombra cresce
como um reino sem mapa ou lei.

Não me cabe herdar a penumbra,
nem a borda da vida
de sua sombra.

Se, na minha memória,
ser pai
é ser origem
que não toca no que fez.

No diálogo com a sombra,
eu afirmo:

Sou o filho
que fez o que ele não pôde tocar…
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/06/2026
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