

O Menino que Conversava com Sombras
Nunca tive medo de sombras,
pois já conversava com elas desde os primórdios. A sombra do espelho ausente, que me ensinou a superar meus medos. A entender que o contrário do que ele me mostrou na prática, enquanto dizia com orgulho: Verdadeiro homem tem várias mulheres para satisfazê-lo. Pobre infeliz. Morreu moribundo e solitário. Mas eu e o que não volta, a ferida que me segue, nos provamos sem trégua. Eu e o vulto do que me assombra. Aquele que, mesmo eu querendo, para alegria ou decepção, não volta. O peso que me nomeia, e nos digladiamos no mesmo vão do meu arrastar. Pelo meu direito de querer ser, eu, um espelho inteiro, e curar as raízes das trincas no reflexo do vidro quebrado. O único fragmento de sua sombra com o qual dialogo é: Se ele me visse hoje, teria orgulho de mim? Porque ainda preciso da aprovação do que foi reprovado? Não sei… Talvez queira eu ser o espelho onde ele, tardiamente, aprendesse a ser reflexo. Imagine! O paradoxo da imagem especular… O filho é o instante em que o pai se extravia. E nessa fauna imprecisa, onde o claro da existência dele é ferida, a sombra cresce como um reino sem mapa ou lei. Não me cabe herdar a penumbra, nem a borda da vida de sua sombra. Se, na minha memória, ser pai é ser origem que não toca no que fez. No diálogo com a sombra, eu afirmo: Sou o filho que fez o que ele não pôde tocar…
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 05/06/2026
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