

A Pátria do Menino que Herdou uma Lápide
Sonhei que estava perdido
no país de onde sou cria. Em um barraco apertado um chá de bebê em volta da prenha muitos descendentes da África. Cabindas, iorubás, congos e malês. Petiscos, bebidas. Celebração tem que ter de comer e beber. Também tem samba e batuque. Oração, ladainhas. Osso vira caldo na panela deitada no fogão a lenha. E no beco atrás do barraco. A escuridão dividia o protagonismo. Com a fumaça que não subiu pra cuca, e o gemido de mais uma novinha levando um amasso do Don Juan do pedaço. E a noite seguia frenética na pátria dos quilombolas, pois vai nascer mais um herdeiro. Desperto no canto da cama sem saber se era memória ou premonição, mas a gente daquele sonho eu não conhecia. A realidade deles talvez. O cheiro de mofo do barraco era familiar. A esteira no chão de barro batido e as roupas com um tom encardido. Agora fiquei na dúvida se era berço ou caixão na celebração. Talvez, ao invés de uma criança, uma sina nascida morta. Estariam eles bebendo o gurufim de algum finado que o capataz de farda matou. Um flash! Sim, tinha polícia no sonho e, claro, muita violência. E o amasso no beco atrás do barraco se revelou. O ato de homens maus com carteira e arma. Sim, eles e seu pseudo direito coletivo no corpo de uma virgem da comunidade. Homens de farda! Seus atos não me escapam à memória. E se eu for relatar todos eles, o que se perde é todo o enredo do que estou narrando. Também vi novos arrimos de família. Amontoados num leito sujo cuja a força os despencava ladeira abaixo logo após a mão de ferro os afogar nas águas podres da culpa. Batizados num líquido que cheirava a fezes, cuja corrente numa sanga ancestral, a garra da ordem os afundava no pus da proibição. De relance lembrei que tinha fogos de artifício no céu! Era bonito. Era, até o fundo aparecer. Jovens soldados, galhos acesos por mãos ainda lisas, escorridos nas veias estragadas do crime. Examinando minuciosamente, no sonho tinha alguém que comentava com uma voz triste e velha. Mais um trabalhador que o álcool destrói. Não, espera. Não era bem isso que ela murmurava. … Lembrei! O que a pobre velha dizia em prantos… Mais uma família que o vício matou. Ela era uma boa mulher, mãe exemplar e não merecia isso… Que esse monstro pague pelo que fez à minha filha… Ela não merecia. E no canto o menino observa tudo com olhar de vingança. Só não sabe por onde começar. Pelo pai, pelo Estado ou pela polícia… Mas um propósito ele tinha. Um dia essa pátria inteira vai ser minha. Já pensava ele como dono do morro. Nenhuma rainha vai ser morta. No meu tribunal vai ser pena capital para violência contra a mulher. Ideias que estouram no próprio pé de quem vai se vender ao trono e fabricar tudo que mais vomitou naquela hora de luto pelo ventre que o fez. Ele vai se curvar ao cetro e repetir tudo que mais cuspiu naquele momento de dor. Ah, sociedade apática à dor do menino. O que você chama de cotidiano se revela o nascimento de mais um monstro que me atormenta todas as noites. E agora, eu sentado no canto da cama rio. Só de fantasiar você agonizando no chão da sua consciência. Pois eu não estava perdido. Minha revolta encontrou caminho até o peso na sua cabeça. Eu… O projétil maldito que sua segregação moldou e que agora deito linhas para te desconstruir por dentro. Sua lápide vai ter palavras feitas para quem herdou privilégios alimentados pelo jugo do meu povo. RIP, uma ova… Quero que sua consciência não descanse em paz, a partir dessa leitura.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/06/2026
Alterado em 27/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |