

Menino-canto Entre Becos e Vielas, Sobrevivência vs. Bala Perdida
A lei do silêncio
é coisa que se aprende na prática, na pele e no tormento do jugo que te açoita os Zumbis de pavio trocado. Os que estão de frente na Palmares da modernidade. Sim, é o crime e não o creme. A idade que tinha era de sete anos, mas o conto não é de mentiroso. E nem tampouco vou aumentar um ponto para dramatizar. Eu sei que isso não te comove. Dois canos de trinta e oito apontados para a face e uma ameaça. Cala a boca, se os pé-preto entrarem aqui, você morre primeiro. Os barracos dos anos setenta tinham porta e morador. O dono? Mandava no morro todo. Época de férias escolares, só melava quando os frentes entravam em guerra. Mas nada abalava a fome da molecada pelo futebol… Põe o cadáver peneira para fora do campo, que a pelada vai começar. Esse não vai desfalcar o time. Já tomou cartão vermelho antes mesmo da partida começar. Teco-teco, mas não na bola de gude. Quebraram mais um no campo! Uma criança, dizia uma senhora atônita. Hoje chorou a mãe do meu amigo. Quando vai chorar a minha? Será que já tenho hora certa com ela, desgarrada no morro, caçando um crânio de filho da chibata? Ela, o doce que o Estado ainda segue oferecendo às nossas crianças nos dias de hoje. Bala errada na ladeira buscando ou no beco farejando um corpo com cheiro de sangue de senzala. E o verão segue, apesar de muitos não cumprirem sua próxima primavera. E as velas não serão para bolos de glacê feitos de gordura vegetal e corante cancerígeno. Não. Serão para novenas, ladainhas dos que partem antes que o sol amanheça. Queimando o que está coberto por um lençol ensopado do próprio sangue. Eu corria nos becos feliz no pique do pega-pega. O que pegou quem corria ao meu lado, na passagem rápida entre uma viela e outra, foi certeiro. Pesado. E eu, de joelhos, com as mãos na cabeça, tomava uma dura da guarnição. Sem tempo para socorrer ou sequer entender que escapei por uma fração de segundo. Quando os homens decidiram brincar de passaralho, passaralho… Eu passei. Infelizmente, ele não. Quem me guarda não dorme! Mas o anjo da guarda desse infante pardo, caído sem vida ao meu lado, acho que era novo na função. Assustou-se com a violência que entra no quilombo para brincar de polícia e ladrão. …Fim da correria, da brincadeira que decidiu cruzar com o caminho da ronda policial. Aí! Se levar isso ali para mim, te dou um trocado… O aliciamento pega onde o sapato aperta. Bola, bicicleta, tênis de marca e roupa de shopping. Quem não quer? Afinal, o tufo nasce no queixo e no baixo-ventre do novilho. E, com ele, o ardor de se emparelhar. O pavão sem plumas não colhe ninho. E, na intenção, a ave dá um voo maior que o giro do mundo. Avião hoje, gerente amanhã. Mas essa ilusão que vicia te faz querer ser mais. Não, o sonho de todo soldado não é ser o frente do morro. Ele vive no pesadelo. Sangra o terror de que o chão é carniça e o asfalto é a conta onde ficar é fome e fugir é legenda do esquecimento. Saga segura para esse caminho. Temporada na colônia, fazendo um pós-doutorado do tráfico. Ou paletó de madeira. Aposentadoria vitalícia e fria. Eu? Como ainda respirei nesse chão afogado de choro e mentira com brilho? Preferi me armar de letras e música. E o que vem da memória é a munição da minha sobrevivência. E a meta é sua mente, cria. Leia e vicie-se. Aqui tudo é de graça. Da primeira à última dose.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/06/2026
Alterado em 24/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |