D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

O Menino que Atravessa Pontes Cantando
O Menino que Atravessava Pontes Cantando

Já morei na rua
mesmo tendo casa.

Teto que não me compreendia.
Na rua eu me encontrava.

Aprendi que,
se na rua eu fosse abusado,
eu podia dar o troco.

Em casa não…

Ali fui descredibilizado
e ainda açoitado
por apontar o dedo
para quem me feriu
física e psicologicamente.

E ela não fazia isso por descaso.

Não pode ser descaso
a atitude de quem também é vítima.

O nome disso é medo.
Talvez do padrasto abusivo?

Íncubo que se tocava
olhando pela greta da porta,
enquanto a virgem de ébano,
na sua inocência,
mudava de vestimenta íntima.

Minha pobre irmã,
na sua inocência de se olhar no espelho,
não sabia que o escuro dos dias
tramava um destino doloroso à sua pureza.

Por mais que eu apanhasse,
seguia denunciando aquilo que ela, minha mãe,
por amor,
não queria ouvir.

… Ou medo de encarar a verdade.

Mas ali estava ela outra vez,
nas mãos de mais um mestre
da manipulação e da toxicidade.

Tanto faz o motivo dela.

Meu objetivo era cruzar essa ponte.

Uma tarde cheguei na seresta.

Lá estava ele,
o pescador de mulheres com seu violão.

Não sei se foi surpresa ou indignação,
mas, pela primeira vez, ele esboçou
o que parecia ser um sentimento.

Ele me olhou,
e a música da roda era O Mundo é um Moinho.

E, como quem pedia a bênção,
eu cantei.

Lembro que alguém gritou:

Olha o filho do Arruda como canta…

Cantei uma do mestre Candeia,
não porque começava minha caminhada
e terminava a dele, meu pai,
mas sim porque,
apesar de toda a toxicidade que ele emanava,

eu precisava realmente me encontrar,
eu precisava dele
para ter um norte.

Você tem talento,
disse ele,
como quem esboça orgulho ou inveja.

Não sei.

Depois daquele dia,
nunca mais o vi.

Só sei que morreu.

Sem mulher, sem viola,
sem lágrimas de filhos e sem memória.

O pescador de amores morreu à deriva
em um mar desértico de solidão.

E essa ponte ficou para trás.

Oitenta e três era o décimo ano da minha caminhada,
e, na festa da padroeira do bairro da Penha,
estava eu procurando identidade paterna.

Eu fui o pivete ligeiro da ginga redonda.

Tantos mestres,
e cada um, dançando fino,
no seu trejeito de malandro,
escondia sua sombra vestida de fera
por sob a entrecasca de ticum.

Todos guardiões,
e cada qual, como bom mandingueiro,
soprava que o existir se dobrava
como jogo de dentro.

A armadilha não está no braço que balança,
mas no olho que aprende a esperar sem piscar.

Na volta do mundo,
é com o fio da navalha
que se deve estar atento.

Dessa ponte pra lá
eu já me sentia pronto.

Yê, viva meu mestre!

Comecei a escrever letras
na ponte que me levou à poesia.

Frequentava rodas de samba
que não abrigavam a minha idade.

Ela, minha mãe,
se apegava ao evangelho de que
quem dá mais redime seus pecados.

Mas o que mais pesou nela
foi a chaga de fêmea rasgada.

Enxergou em mim o reflexo do velho.

Estilhaços do espelho quebrado
do meu genitor.

Ela lascou meu cerne
e queimou meu cavaquinho
junto com meu caderno de rascunhos.

Atravessei outra ponte
que me levava à rua das amarguras.

Foi nas almas
que eu conheci a macumba.

Conheci uma família que me acolheu
e, sobretudo,
uma filiação paterna complexa.

Padrinho Paulinho,
o pai dos filhos de Xangô com Oxum.

A família,
que representava resistência.

Nas viagens de trem para Jardim Primavera,
cantávamos pontos ritualísticos,
enquanto tantos crentes pregavam a palavra.

Viagem ecumênica essa.

Ninguém brigava.
Todos comungavam.

Tenda Espírita Pai Joaquim da Pedreira.

Nessa travessia,
eu me tornei ogã respeitado,
filho amado
e irmão querido.

Até o sagrado sabia meu nome.

Então veio a mim
a ponte quebrada.

Meu primo…

Formigão,
o frente da fé.

Tinha tudo:

poder, dinheiro e mulher.

E, claro, colei com ele.

O mais perto de um irmão
que nunca tive.

Fechamento, brincalhão…

Segura essa peça,
que a mulherada vai ficar babando em você.

E, pendurado na minha cintura,
além de um pênis explodindo em hormônios,
tinha eu uma sete meia cromada,
pente estendido.

Sem querer fazer apologia…

Eu agora era o cara.

O segurança do subchefe.

Mas essa ponte tinha buracos
que, como bocas de tamanduá,
devoraram a vida do meu primo.

E eu quase que fui nessa…

A mãe do meu primo soluçou.
Minha mãe desfez o rosto.
Meu padrinho Paulinho perdeu o chão
e enterrou o olhar que tinha de mim.

Fui decepção
até ela me resgatar outra vez.

A música.

O dom que me deu forças
para refazer no canto
uma outra passagem.

Me levantar entoando
outra ligação.

Fui para longe de todos,
mas para perto da música,
do samba.

Noventa e quatro era o ano,
depois de uma temporada no quartel.

Lá estava eu,
em terra da qual não era cria.

Já cheguei com know-how de sambista.

Agora eu era o carioca.

Outra vez filho do Arruda.

Mas com minha própria estrada,
minha experiência.

O prodígio do bamba…

Que agora era a ponte.

Quando nasceu minha primogênita,
os amigos diziam:

Deu uma fraquejada, rapá!

Mas a segunda filha veio confirmar
que um dos meus propósitos como ponte
era quebrar o espelho da que me pariu.

Mas deixei escapar
o monstro tóxico e manipulador
que se escondia à minha sombra…

Meu pai sentiria orgulho
se visse o marido que me tornei.

Construído exatamente
à imagem e semelhança
dos cacos que ele era.

Mas, antes de cruzar a ponte
e me tornar por completo
algo que sempre odiei,
resolvi me olhar
no reflexo de cada caco
que me assombrava.

E vi:

o infante que ali gemia,
trancado na cela de feridas
que não deixei construir casa
num divã de preço de corpo inteiro
para um resto como eu pagar.

E disse:

basta.

Chegou o momento
de desarmar o ringue
e refazer a ligação.

Ainda que seja com os cacos
do que era antes.

O futuro precisa caminhar seguro
na melodia da reconstrução.

E, de tijolo em tijolo,
caco por caco,
descobri:

Sou eu a ponte desse porvir.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 07/06/2026
Alterado em 26/09/2026
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