

A Travessia do Inteiro
Até aqui o que construí vem com um selo de garantia no peito…
Orgulho. É todo meu. Não peço mais licença para existir. A travessia não tem ponte, nem corda na mão, nem nó na garganta. E do rio que me pede os ossos, dessa água não beberei. Porque parti em dois antes do grito. Um ficou do lado da casa, o outro aprendeu a beber sal e solidão. Agora, no meio do vão, descubro que inteiro não é soma, é trégua. Pleno é tocar o tremor sem desviar o corpo. É cessar de colher os pregos e consentir que também se é carne de ferro. É parar de sacar as farpas e saber que também se é galho bravo, sem recuar o pé. Largar de extrair os ramos feridos dos dias em que o vento frio da apatia dos homens esbofeteou a caridade em minha face. E pensar que eu já comi dos seus restos, e o que eu vomito hoje são letras no fluxo da história. Isso me faz entender que também o que cai do galho vira adubo para a semente vindoura. Bom, atravessei com o que sobrou de mim. Vísceras abertas servindo de mapa. Coração que não sabe mais dizer não, e sim, ainda com a mesma boca rasgada de fome. O rasgo até fecha, mas a cicatriz perdura como norte de quem quer mudança. Cada passo é lembrar de um pedaço que abandonei na construção desse agora… Mas muito há por vir… Ah, virá! Cada parada, um funeral. Cada tijolo, uma vida, mas eu ando. Ando porque a travessia é o próprio inteiro. Agora sei. Que destino é o movimento de não desistir do meio. Não há outra margem. Só este corpo no centro da arena. Plantado no mundo que me foi herdado, com as mãos marcadas pela estrada. E o sossego enfim falando: Você chegou, porque deixou de correr de você.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 08/06/2026
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |