D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Inventário das Primeiras Perguntas
Para os que gostam de brincar de rima…

Nasci no meio do espanto,
sem manual, sem luzeiro.
Abri a mão: tinha um pranto.
Abri a outra: um cativeiro.

A primeira voz que escutei
não foi mãe, foi um abismo.
“Quem é você?”
perguntei
antes de ter nome ou siso.

Quem sou eu?

Sombra que indaga a luz?
Rio que pergunta ao leito?
Ou o que resta depois que a voz se reduz
a um traço no peito?

De onde vim?
De um estilhaço de estrela?
De um soluço do chão?
De uma fratura tão antiga e tão bela
que nem a vida lembra a razão?

O que é existir?

É acordar sem pedir licença,
é caber num instante que foge,
é saber que a ferida começa
no mesmo lugar onde o gozo se enjoa.

É ser ponte pra ser travessia.
É ser fome sem ter sobremesa.
É a cor que não tem nome e ardia
quando a noite não era surpresa.

O que é amor?

É o nome que a solidão deu
para a coragem de errar.
É o cansaço depois do adeus
e o medo de não voltar.

É também esse nó no pulmão
quando o outro se torna um espelho quebrado
e você reconhece o irmão
no mais fundo do seu pesadelo.

O que é Deus?

O intervalo entre a falta e o grito.
O silêncio depois do sim.
O que recusa ser dito
para que você vá atrás de si.

Deus é a pergunta sem preço
que não quer resposta,
quer dança.

Laroyê!

Meus Deuses comungam comigo no xirê do ilê.
Não são abismos feitos de começo,
onde a razão perde a confiança.

Não…
Eles bebem.
Me abraçam,
e choram.

O que é o tempo?

O osso que rói a memória.
O ateliê da ilusão.
A narrativa provisória
que vestimos de eternidade em vão.

Zara Tempo!

É um velho que nasce criança,
um começo que finge ser fim.
Tempo é o nome da distância
entre o que sou e o que fui de mim.

O que é consciência?

A ferida que aprendeu a doer.
O lugar onde o mundo se observa.
É o pássaro preso no ar
que descobre que a gaiola é a própria curva.

Consciência é um verbo sem posse,
um rio que corre ao contrário:
enquanto tudo desaba, ela é
o alicerce do seu próprio armário.

Por isso, leitor, não começo com glória.
Começo com essa gaveta aberta.
Estas são as perguntas da minha memória.
A travessia, agora, é certa.

Ninguém me deu mapa ou lanterna.
Só o vazio me deu o lugar.
Se estas linhas são uma gruta, uma cisterna,
é porque primeiro eu precisei perguntar.

Que comece a travessia do que não tem nome.
Que o espanto seja o meu único cais.
Inventário das Primeiras Perguntas:

eu não sou
eu nunca fui
resposta jamais.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 09/06/2026
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