

Inventário das Primeiras Perguntas
Para os que gostam de brincar de rima…
Nasci no meio do espanto, sem manual, sem luzeiro. Abri a mão: tinha um pranto. Abri a outra: um cativeiro. A primeira voz que escutei não foi mãe, foi um abismo. “Quem é você?” perguntei antes de ter nome ou siso. Quem sou eu? Sombra que indaga a luz? Rio que pergunta ao leito? Ou o que resta depois que a voz se reduz a um traço no peito? De onde vim? De um estilhaço de estrela? De um soluço do chão? De uma fratura tão antiga e tão bela que nem a vida lembra a razão? O que é existir? É acordar sem pedir licença, é caber num instante que foge, é saber que a ferida começa no mesmo lugar onde o gozo se enjoa. É ser ponte pra ser travessia. É ser fome sem ter sobremesa. É a cor que não tem nome e ardia quando a noite não era surpresa. O que é amor? É o nome que a solidão deu para a coragem de errar. É o cansaço depois do adeus e o medo de não voltar. É também esse nó no pulmão quando o outro se torna um espelho quebrado e você reconhece o irmão no mais fundo do seu pesadelo. O que é Deus? O intervalo entre a falta e o grito. O silêncio depois do sim. O que recusa ser dito para que você vá atrás de si. Deus é a pergunta sem preço que não quer resposta, quer dança. Laroyê! Meus Deuses comungam comigo no xirê do ilê. Não são abismos feitos de começo, onde a razão perde a confiança. Não… Eles bebem. Me abraçam, e choram. O que é o tempo? O osso que rói a memória. O ateliê da ilusão. A narrativa provisória que vestimos de eternidade em vão. Zara Tempo! É um velho que nasce criança, um começo que finge ser fim. Tempo é o nome da distância entre o que sou e o que fui de mim. O que é consciência? A ferida que aprendeu a doer. O lugar onde o mundo se observa. É o pássaro preso no ar que descobre que a gaiola é a própria curva. Consciência é um verbo sem posse, um rio que corre ao contrário: enquanto tudo desaba, ela é o alicerce do seu próprio armário. Por isso, leitor, não começo com glória. Começo com essa gaveta aberta. Estas são as perguntas da minha memória. A travessia, agora, é certa. Ninguém me deu mapa ou lanterna. Só o vazio me deu o lugar. Se estas linhas são uma gruta, uma cisterna, é porque primeiro eu precisei perguntar. Que comece a travessia do que não tem nome. Que o espanto seja o meu único cais. Inventário das Primeiras Perguntas: eu não sou eu nunca fui resposta jamais.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 09/06/2026
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