D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Cacos hereditários, o reflexo consanguíneo
Espelho…

Eu desaprendi a te esperar.

Não sei mais quantas vezes
uma porta pode permanecer aberta
antes de compreender
que também existem ausências
que entram em casa.

Durante muito tempo
eu esperei você.

Não apenas seus passos,
sua voz,
uma visita,
um telefonema.

Esperei aquele gesto pequeno
que dissesse:

Pai, eu ainda sei onde você deixou a sombra
dentro do meu osso.

Sei o endereço do seu quarto
dentro do meu peito,
o caminho
até o seu chão em mim.

Mas o tempo tem uma crueldade pedagógica.

Ele ensina.

Ensina uma cadeira
a não esperar quem deveria sentar nela.
Ensina o telefone
a permanecer em silêncio.
Ensina aniversários a passarem.
Ensina domingos.
Ensina Natais.

E, por fim,
ensina um pai
a sobreviver à existência de um filho
como se sobrevivesse à ausência dele.

Já não pesa
se você vem ou não.
Já não espero
se um dia sua boca
soltar o que nunca disse.

Não ocupa mais espaço
se o verbo amor
um dia sair de você.

Não porque eu tenha acordado cruel.

Mas existiu um canto em que isso consumia tanto
que precisei sufocar em mim
o que ainda te esperava
para que o que restou de mim
pudesse seguir sem você,
pudesse, enfim, respirar.

E não confunda isso com ódio.
Ódio ainda é vínculo.
Ainda olha para trás.
Ainda exige.
Ainda espera alguma coisa.

Eu não quero exigir nada de você.
Sei o pai que fui.

Conheço meus erros
e não preciso me fantasiar de santo
para reconhecer meus acertos.

Sei quantas vezes tentei.
Sei quantas vezes quis ser pai
sem deixar de tentar ser amigo.
Sei o que ofereci.
Sei também o que não consegui oferecer.

Minha consciência não precisa
que você me absolva.

A vida não é um tribunal
onde o filho necessariamente conhece
todos os autos do processo.

Há histórias contadas antes
que tenhamos idade para contradizê-las.
Há versões repetidas tantas vezes
que um dia esquecemos
que eram versões.

E existem culpas nesta história.

Só aprendi, depois de anos carregando todas,
que nem todas são minhas.

Talvez a vida realmente se resuma a uma música.

Algumas pessoas chegam como refrão.
Outras permanecem como verso.

Há aquelas que desafinam conosco
e, mesmo assim, continuam cantando.

E existem silêncios tão compridos
que acabam fazendo parte da composição.

Você se tornou um desses silêncios.

E eu precisei aprender
a não interromper minha música
esperando sua entrada.

Por isso, se algum dia vier,
não venha por obrigação.
Não venha porque alguém lhe disse
que pais envelhecem.

Não venha para aliviar a consciência.
Não venha trazendo abraços
que amanhã voltarão a ser ausência.

Não me prometa domingos
se você só consegue me oferecer
um sábado emprestado.

Eu suportaria melhor
a honestidade definitiva da distância
do que mais uma proximidade provisória.

Porque promessas vazias também abraçam.
A diferença
é que soltam primeiro.

E eu já fui solto vezes suficientes.

Houve um tempo em que sua distância
me fazia perguntar:

O que eu fiz para meu filho
não querer estar comigo?

Essa pergunta me perseguiu.

Entrou comigo no quarto.
Sentou à minha mesa.
Dormiu ao meu lado.

Até que um dia percebi
a perversidade de continuar me condenando
num julgamento em que eu sequer conhecia
todas as testemunhas.

Então parei.

Não de assumir seu nome.

Não de responder por sua origem.

Isso você não pode desfazer,
e eu tampouco.

Parei de mendigar reciprocidade
para exercer aquilo que um dia
eu já lhe dei sem pedir recibo.

Você não me deve amor.
Você não me deve visitas.
Você não me deve telefonemas.

Mas eu também não devo continuar
me oferecendo ao mesmo abandono
apenas porque entre nós existe sangue.

Sangue estabelece parentesco.
Presença é outra coisa.

Se algum dia você quiser me encontrar,
venha inteiro.

Sem promessas.
Sem encenação.

Sem aquele gesto rápido
que ilumina o ambiente
só para deixar tudo escuro de novo.

Caso contrário, filho,
não venha.

Não digo isso para machucar você.

Digo porque finalmente compreendi
que também tenho o direito
de parar de machucar a mim mesmo.

Talvez você leia estas palavras
e pense que deixei de amá-lo.

Não.

Seria simples demais.

O que morreu foi outra coisa.

Morreu o homem parado na janela.
Morreu a necessidade de ouvir seus passos.

Morreu a fé que varria a sala,
e com ela acabou
a crença que organizava os móveis
sempre que um juramento seu
batia na madeira.

Apagou-se a esperança que arrumava a mesa
toda vez que sua palavra
tocava a campainha.

O pai permanece.
Mas não vive mais
na esquina onde eu plantei a expectativa.

E, se algum dia você quiser saber
quanto sua ausência doeu,

não procure cicatrizes.

Procure justamente
onde já não dói.

Pois não quero que você seja
os cacos hereditários
do espelho que fui…

Foi ali que doeu até morrer.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 13/08/2026
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