

Cacos hereditários, o reflexo consanguíneo
Espelho…
Eu desaprendi a te esperar. Não sei mais quantas vezes uma porta pode permanecer aberta antes de compreender que também existem ausências que entram em casa. Durante muito tempo eu esperei você. Não apenas seus passos, sua voz, uma visita, um telefonema. Esperei aquele gesto pequeno que dissesse: Pai, eu ainda sei onde você deixou a sombra dentro do meu osso. Sei o endereço do seu quarto dentro do meu peito, o caminho até o seu chão em mim. Mas o tempo tem uma crueldade pedagógica. Ele ensina. Ensina uma cadeira a não esperar quem deveria sentar nela. Ensina o telefone a permanecer em silêncio. Ensina aniversários a passarem. Ensina domingos. Ensina Natais. E, por fim, ensina um pai a sobreviver à existência de um filho como se sobrevivesse à ausência dele. Já não pesa se você vem ou não. Já não espero se um dia sua boca soltar o que nunca disse. Não ocupa mais espaço se o verbo amor um dia sair de você. Não porque eu tenha acordado cruel. Mas existiu um canto em que isso consumia tanto que precisei sufocar em mim o que ainda te esperava para que o que restou de mim pudesse seguir sem você, pudesse, enfim, respirar. E não confunda isso com ódio. Ódio ainda é vínculo. Ainda olha para trás. Ainda exige. Ainda espera alguma coisa. Eu não quero exigir nada de você. Sei o pai que fui. Conheço meus erros e não preciso me fantasiar de santo para reconhecer meus acertos. Sei quantas vezes tentei. Sei quantas vezes quis ser pai sem deixar de tentar ser amigo. Sei o que ofereci. Sei também o que não consegui oferecer. Minha consciência não precisa que você me absolva. A vida não é um tribunal onde o filho necessariamente conhece todos os autos do processo. Há histórias contadas antes que tenhamos idade para contradizê-las. Há versões repetidas tantas vezes que um dia esquecemos que eram versões. E existem culpas nesta história. Só aprendi, depois de anos carregando todas, que nem todas são minhas. Talvez a vida realmente se resuma a uma música. Algumas pessoas chegam como refrão. Outras permanecem como verso. Há aquelas que desafinam conosco e, mesmo assim, continuam cantando. E existem silêncios tão compridos que acabam fazendo parte da composição. Você se tornou um desses silêncios. E eu precisei aprender a não interromper minha música esperando sua entrada. Por isso, se algum dia vier, não venha por obrigação. Não venha porque alguém lhe disse que pais envelhecem. Não venha para aliviar a consciência. Não venha trazendo abraços que amanhã voltarão a ser ausência. Não me prometa domingos se você só consegue me oferecer um sábado emprestado. Eu suportaria melhor a honestidade definitiva da distância do que mais uma proximidade provisória. Porque promessas vazias também abraçam. A diferença é que soltam primeiro. E eu já fui solto vezes suficientes. Houve um tempo em que sua distância me fazia perguntar: O que eu fiz para meu filho não querer estar comigo? Essa pergunta me perseguiu. Entrou comigo no quarto. Sentou à minha mesa. Dormiu ao meu lado. Até que um dia percebi a perversidade de continuar me condenando num julgamento em que eu sequer conhecia todas as testemunhas. Então parei. Não de assumir seu nome. Não de responder por sua origem. Isso você não pode desfazer, e eu tampouco. Parei de mendigar reciprocidade para exercer aquilo que um dia eu já lhe dei sem pedir recibo. Você não me deve amor. Você não me deve visitas. Você não me deve telefonemas. Mas eu também não devo continuar me oferecendo ao mesmo abandono apenas porque entre nós existe sangue. Sangue estabelece parentesco. Presença é outra coisa. Se algum dia você quiser me encontrar, venha inteiro. Sem promessas. Sem encenação. Sem aquele gesto rápido que ilumina o ambiente só para deixar tudo escuro de novo. Caso contrário, filho, não venha. Não digo isso para machucar você. Digo porque finalmente compreendi que também tenho o direito de parar de machucar a mim mesmo. Talvez você leia estas palavras e pense que deixei de amá-lo. Não. Seria simples demais. O que morreu foi outra coisa. Morreu o homem parado na janela. Morreu a necessidade de ouvir seus passos. Morreu a fé que varria a sala, e com ela acabou a crença que organizava os móveis sempre que um juramento seu batia na madeira. Apagou-se a esperança que arrumava a mesa toda vez que sua palavra tocava a campainha. O pai permanece. Mas não vive mais na esquina onde eu plantei a expectativa. E, se algum dia você quiser saber quanto sua ausência doeu, não procure cicatrizes. Procure justamente onde já não dói. Pois não quero que você seja os cacos hereditários do espelho que fui… Foi ali que doeu até morrer.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 13/08/2026
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