

QUILOMBO 2, O símbolo mudou de endereço
Inspirado na obra “QUILOMBO. 1”, de João Marcelo Pacheco
Li sua reflexão pensando que talvez o símbolo tenha, sim, progredido, mas sem perder completamente aquilo que o fez necessário. O quilombo não foi apenas um lugar para onde pessoas escravizadas fugiam. Foi também território de resistência, reorganização da vida e recusa de uma ordem que determinava quem podia possuir a terra, quem podia ser livre e até quem podia ser dono do próprio corpo. Por isso, quando olho para determinados acampamentos e ocupações dos sem-terra e dos sem-teto, consigo enxergar uma continuidade política, embora não uma equivalência histórica. Mudaram o século, as leis, os sujeitos e as formas de violência. A escravidão brasileira não pode ser reduzida a uma simples metáfora para explicar as desigualdades atuais. Mas permanece uma pergunta incômoda: quem tem direito ao chão? Ontem, homens e mulheres fugiam de uma estrutura escravista que lhes negava a própria humanidade e construíam territórios onde tentavam recuperar autonomia. Hoje, famílias ocupam terras e edifícios porque uma sociedade capaz de produzir riqueza, moradia e alimento continua convivendo com pessoas sem terra para produzir, sem teto para morar e sem condições materiais mínimas para exercer plenamente a própria liberdade. Talvez aí esteja uma das pontes possíveis entre quilombo, acampamento e ocupação: não são a mesma coisa, mas podem nascer da mesma recusa de aceitar como natural uma ordem que reserva muito para poucos e escassez para muitos. E há uma ironia histórica nisso. Abolimos juridicamente a escravidão, mas não abolimos automaticamente todas as estruturas econômicas, fundiárias e sociais construídas durante séculos de escravidão. Liberdade escrita na lei não distribui terra, não constrói casa e não garante dignidade por si só. Por isso, talvez o quilombo não precise desaparecer para que seu símbolo progrida. Talvez ele progrida justamente quando deixa de representar apenas um lugar do passado e passa também a nos oferecer uma pergunta para o presente: De quantas formas diferentes um ser humano ainda precisa fugir da servidão para conseguir chamar algum pedaço deste mundo de seu? Não digo isso para igualar histórias que possuem pesos e contextos próprios. Digo porque algumas estruturas aprendem a trocar de roupa antes de aprenderem a desaparecer. Talvez o quilombo tenha mudado de endereço. A necessidade humana de liberdade, não. E me perdoe se, porventura, interpretei sua reflexão de maneira diferente daquela que você pretendia. Esta é apenas a leitura que ela despertou em mim.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 19/08/2026
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