

A mulher que o vento não desaprendeu
A mulher que o vento não desaprendeu
Há dias em que a vida fecha as janelas só para descobrir se ainda sabemos fabricar manhãs do lado de dentro. E você sabe. Pode ser que agora seus rastros estejam cobertos num trecho qualquer do chão, mas não tome o descanso por falta de direção. Não confunda pausa com fim de linha. A árvore também fica imóvel enquanto conversa com as raízes. Ninguém vê o que acontece debaixo da terra, até que um galho amanhece vestido de primavera. Você é dessas. Mulher que já rasgou temporais sem mendigar ao céu que diminuísse a força. Aprendeu a amarrar os fios, cravar os pés e seguir sendo paisagem de si. Por isso, não entregue ao instante o direito de definir sua história. Instante é visita. E linha longa não pesa as horas sobre suas pálpebras. Você é casa. E um ninho não perde o voo que guarda porque, em alguns entardeceres, uma de suas penas descansou de ser leve. Em certas estações, um de seus galhos pode se calar para a seiva. E, em outros ciclos, um de seus fios preferiu não puxar o chão. Lembre-se da mulher… O que se esconde no fundo dos reflexos, antes da curva do cansaço, depois do ruído dos medos, acima do vai-e-vem das circunstâncias. Ela continua aí. Com seus risos arquivados em segredo, suas ânsias sem rédea, suas contradições preferidas, sua graça não requisitada e esse hábito lindo de escapar dos momentos que juravam engoli-la inteira. Não eram. Nunca foram. Em você habita um fogo sem idade que não se curva ao ciclo. Um brilho sem data que escapa da linha do tempo. Às vezes se recolhe, às vezes parece distante, mas continua incendiando silenciosamente a beirada das manhãs. Então fique. Inspire a duração sem pressa. Deixe o fio costurar o furacão e o mundo que espere por você alguns instantes a mais. Nem toda trégua é derrota do corpo, e jamais todo silêncio será esquecimento da voz. Algumas são somente a semente descansando antes de restituir a árvore ao seu próprio chão. E quando você escancarar todas as frestas do tempo, não haverá necessidade de aviso sobre sua chegada. O vento reconhecerá você. Afinal, há mulheres que atravessam tempestades. Mesmo que o raio parta do céu sem anunciar ao chão que repousa seus passos que seu destino final ali habita. Mostre que… Há mulheres que fazem a chuva descobrir que ensaiou o dilúvio no telhado errado. Dedicatória Para minha querida amiga Sandra Estêvão, que se encontra em um leito hospitalar. Ela, a mulher que inspirou estas palavras. Mana, nunca se esqueça da mulher que até o vento aprendeu a reconhecer. Que você se recupere logo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 21/08/2026
Alterado em 25/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |