D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

A mulher que o vento não desaprendeu
A mulher que o vento não desaprendeu

Há dias em que a vida
fecha as janelas
só para descobrir
se ainda sabemos fabricar manhãs
do lado de dentro.

E você sabe.

Pode ser que agora
seus rastros estejam cobertos
num trecho qualquer do chão,
mas não tome o descanso
por falta de direção.

Não confunda pausa
com fim de linha.

A árvore também fica imóvel
enquanto conversa com as raízes.
Ninguém vê o que acontece debaixo da terra,
até que um galho amanhece
vestido de primavera.

Você é dessas.

Mulher que já rasgou temporais
sem mendigar ao céu
que diminuísse a força.
Aprendeu a amarrar os fios,
cravar os pés
e seguir sendo paisagem de si.

Por isso,
não entregue ao instante
o direito de definir sua história.

Instante é visita.

E linha longa
não pesa as horas
sobre suas pálpebras.
Você é casa.

E um ninho não perde o voo que guarda
porque, em alguns entardeceres,
uma de suas penas
descansou de ser leve.

Em certas estações,
um de seus galhos
pode se calar para a seiva.

E, em outros ciclos,
um de seus fios
preferiu não puxar o chão.

Lembre-se da mulher…

O que se esconde no fundo dos reflexos,
antes da curva do cansaço,
depois do ruído dos medos,
acima do vai-e-vem das circunstâncias.

Ela continua aí.

Com seus risos arquivados em segredo,
suas ânsias sem rédea,
suas contradições preferidas,
sua graça não requisitada
e esse hábito lindo
de escapar dos momentos
que juravam engoli-la inteira.

Não eram.

Nunca foram.

Em você habita
um fogo sem idade
que não se curva ao ciclo.
Um brilho sem data
que escapa da linha do tempo.

Às vezes se recolhe,
às vezes parece distante,
mas continua incendiando
silenciosamente
a beirada das manhãs.

Então fique.

Inspire a duração
sem pressa.
Deixe o fio costurar o furacão
e o mundo que espere
por você alguns instantes
a mais.

Nem toda trégua
é derrota do corpo,
e jamais todo silêncio
será esquecimento da voz.

Algumas são somente
a semente descansando
antes de restituir a árvore
ao seu próprio chão.

E quando você escancarar
todas as frestas do tempo,
não haverá necessidade de aviso
sobre sua chegada.

O vento reconhecerá você.

Afinal,
há mulheres que atravessam tempestades.

Mesmo que o raio
parta do céu sem anunciar
ao chão que repousa seus passos
que seu destino final ali habita.

Mostre que…

Há mulheres
que fazem a chuva descobrir
que ensaiou o dilúvio no telhado errado.

Dedicatória

Para minha querida amiga Sandra Estêvão,
que se encontra em um leito hospitalar.

Ela, a mulher que inspirou estas palavras.

Mana, nunca se esqueça da mulher
que até o vento aprendeu a reconhecer.

Que você se recupere logo.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 21/08/2026
Alterado em 25/09/2026
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