

Aos deuses com carinho, não quero ser imortal
Mão que sustém o clarão também edifica o abismo.
Mas o que arde no centro da vigília é um verbo sem dono. Fui provado… Pois a soleira me provou e eu não terminei de não entrar. E o pouco que entrei era o muito que sempre esteve. Os mais cheios de tempo sugerem alguns dias soltos do peso do mundo. Do compasso que a moeda criou, das pressas que se colam à pele e, se der, de mim, que ainda teima em querer entender. Compreensão, só o quase que a palavra não disse, mas o silêncio guardou. Ou talvez de uma folha, que deixa pegadas no ar quando o vento desvia sua rota. Intencional, penso eu, da luz que demora a perceber que já é tarde. Na verdade, não sabem nada dos milésimos que sustentam as correntes que aprisionam o pensar. Eles deram a escrita e, nela, o livre-arbítrio, mas seria fácil demais deixar-te interpretar o que já foi dito. Em outras parábolas, é o mesmo que te entregar o rastro e jurar que era o passo. Palavra não volta atrás. Avisa a eles, tá! Estou obedecendo. Mais ou menos. “Fingindo.” Será que eles sabem? Talvez não. Talvez um pouco. Ou talvez representem que me guiam, enquanto desviam o rosto da minha origem. Decifrar o que não está escrito no território literário do outro. Essa curiosidade, que me faz mergulhar nas entrelinhas. Esse antídoto que sara, mas às vezes desvia a corrente dos meus afetos. Um frasista de verve satírica me escreveu: “Suéciai, cara!” Às vezes rio da tragédia e quase choro com a anedota. Se eu gargalhar na hora errada, não me julguem. Mas prefiro responder com Chico César: Deve ser legal Ser negão, no Senegal… E ainda me arrisco a dizer: Literalmente, viu. Talvez seja só minha razão tirando um descanso antes de mim. Meu senso de folga antes de encontrar meu juízo. Não é apenas tanto faz. É conceito de Nietzsche entre dois mundos ambíguos. E eu olho para você, bem antes que te acercasses do meu abismo. A gente daqui é daquelas que pesam a mão na balança antes de segurá-la ou de erguer o dedo e te nomear forasteiro. Percebe agora, caro tecelão de palavras, quando alguém extravia o ponto de exclamação no sentido do que se diz sua explanação? Interpretação. Pode coabitar um multiverso de fatos dentro de cada um. Por alguns segundos, o clarão que contenta a vista sem tentar abraçar toda a estrela, sem ambicionar a chama completa. Mais palavras são palavras, e dentro de cada fagulha ainda queima um sol inteiro. Acendem uma vela. Depois outra. E outra. Até que a gente consiga enxergar novamente o caminho. Dito isso, lembrei. Minha bússola não aponta para a sala da imortalidade. Não se assentou em mim esse fogo que acende a vontade de um, enquanto, no outro, o que inflama é a pira de criticar a arte que és incapaz de criar. Toda obra nasce com essa sina, de ser alçada com esses tipos de retina. Minha caneta pediu silêncio, minha cabeça pediu distância e eu, talvez escute os dois. Mas é de minha natureza deitar no papel cada rosto, cada palavra, cada preocupação, cada gesto. E muito mais do que o momento me entregue. E, quando falta vento num corpo, outros chegam e repartem o sopro que têm guardado: inspiração. E, entre um riso que não sabe se deveria ser lágrima e uma lágrima que parece ter ouvido uma piada, eu só consigo dizer: obrigado. Obrigado por não serem apenas textos dentro de uma urgência, para quem precisa da escrita. E ficar bem. É, às vezes, deixar a luz apagada por alguns dias sem acreditar que amanhecer e claridade sejam a mesma coisa. E saber disso já acende alguma coisa aqui dentro, por vocês existirem na minha vida. Hoje e para todo ponto, vírgula e reticências, etc., etc… Amém.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 30/08/2026
Alterado em 26/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |