

Domingo de Deus, acorda que começou a semana
Ei, senhor!
Deus, acorde, pois seus pesadelos começam a engolir seus filhos. Uns já cruzaram a linha. Outros estão chegando ao limiar da sanidade. E alguns podem te surpreender. Ah, sim! Sim, são esses que vomitam ser sua imagem e semelhança. Os mesmos que, ainda hoje, seguem trucidando corpos na autoridade do seu nome. Deus, a sua origem é branca? Pois talvez a história esteja se contradizendo. Enviesada, talvez! Não blasfeme, retinto herege. Herege? Eu dançava, plantava e colhia. Meus deuses ali coexistiam, e a minha gente tinha felicidade. Depois que vocês, homens do rito, me afundaram no sagrado, me dizem que meu estranhamento é pecado. Molharam-me à força na pia de águas calmas, onde a corrupção nada à margem da superfície. Agora dizem que minha sede é heresia. Ah, tá! Eis a questão. Como pode o grande Deus do patriarca semita, o pastor nômade do deserto, ter pele de neve e usar a roupa do colonizador? E ainda dizem que meu povo é amaldiçoado desde os dias do arco da aliança. Pois é, contam que o herdeiro do navegante do temporal que afogou o mundo, o dilúvio genocida, foi quem fez nascer a cor da noite. Ou do pecado. Né? Mas ele carregou a mancha só porque seus olhos toparam a nudez do pai em estado de queda. Não. Quem assinou o beó foi o neto do bêbado pervertido, e nós, a chamada descendência fadada. Não existe maldição maior do que ter sua origem desapropriada e manipulada. Ter seu nome à frente de projetos de poder. O copo de leite azedou, mas a água ainda está quente. Cuidado. Perfeita para despelar. Toma, velho. Está amargo o argumento, mas requentado, jamais. Porque aqui, todo dia, se passa um preto no saco de pano. A chapa tá quente. Vai de pão? Eu poderia tentar adoçar com orações, mas eles são mais hábeis. E vão de autoflagelação… Mas me diz aí? É fetiche deles, ou você curte essa de voyeur sádico? Beba antes que esfrie. Pronto. Agora que começas a despertar com sobriedade, talvez possas responder à maior interrogação do existencialismo. Não é mais sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha. Não. É sobre quem é você e o porquê não te sentas junto à plebe nas igrejas. E por que andas tão calado enquanto o sacrifício é arrancado dos que têm fome… Até quando, Deus? Hoje é domingo, e eu, de verdade, gostaria que o mal caísse em sono profundo e você, Deus, queimasse a cartilha que te prende ao púlpito para não ter que santificar o eco que te cerca. Esse saltério que te embriaga e os louvores de bocas que se diminuem com humildade pífia te sequestram ao repetir: “Quão grande és Tu”, que te faz míope. Fica a dica. A soberba é a armadilha do caminho estreito. Não te curves à imagem que criaste de ti. Vem brincar de pacificar o mundo, antes que rasguem o que ainda nele respira. Paz, antes que a bênção vire bomba.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/09/2026
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