D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Domingo de Deus, acorda que começou a semana
Ei, senhor!
Deus, acorde,
pois seus pesadelos começam
a engolir seus filhos.

Uns já cruzaram a linha.
Outros estão chegando
ao limiar da sanidade.
E alguns
podem te surpreender.

Ah, sim!

Sim, são esses que vomitam
ser sua imagem e semelhança.

Os mesmos que, ainda hoje,
seguem trucidando corpos
na autoridade do seu
nome.

Deus, a sua origem é branca?

Pois talvez a história
esteja se contradizendo.

Enviesada, talvez!

Não blasfeme,
retinto herege.

Herege?
Eu dançava, plantava e colhia.
Meus deuses ali coexistiam,
e a minha gente tinha felicidade.

Depois que vocês,
homens do rito, me afundaram no sagrado,
me dizem que meu estranhamento é pecado.

Molharam-me à força
na pia de águas calmas,
onde a corrupção
nada à margem da superfície.
Agora dizem que minha sede é heresia.

Ah, tá!
Eis a questão.

Como pode o grande Deus
do patriarca semita,
o pastor nômade do deserto,
ter pele de neve
e usar a roupa do colonizador?

E ainda dizem
que meu povo é amaldiçoado
desde os dias do arco da aliança.

Pois é, contam que o herdeiro
do navegante do temporal que afogou
o mundo,
o dilúvio genocida,
foi quem fez nascer a cor da noite.

Ou do pecado.
Né?

Mas ele carregou a mancha
só porque seus olhos toparam
a nudez do pai em estado de queda.

Não.
Quem assinou o beó
foi o neto do bêbado pervertido,
e nós, a chamada descendência
fadada.

Não existe maldição maior
do que ter sua origem desapropriada
e manipulada.
Ter seu nome à frente de projetos
de poder.

O copo de leite azedou,
mas a água ainda está quente.
Cuidado.
Perfeita para despelar.

Toma, velho.

Está amargo o argumento,
mas requentado, jamais.
Porque aqui,
todo dia, se passa um preto
no saco de pano.

A chapa tá quente.
Vai de pão?

Eu poderia tentar adoçar com orações,
mas eles são mais hábeis.
E vão de autoflagelação…

Mas me diz aí?

É fetiche deles,
ou você curte essa de voyeur
sádico?

Beba antes que esfrie.

Pronto.

Agora que começas
a despertar com sobriedade,
talvez possas responder
à maior interrogação do existencialismo.

Não é mais sobre quem veio primeiro,
se o ovo ou a galinha.

Não.

É sobre quem é você
e o porquê não te sentas junto
à plebe nas igrejas.

E por que andas tão calado
enquanto o sacrifício é arrancado
dos que têm fome…

Até quando, Deus?

Hoje é domingo,
e eu, de verdade, gostaria
que o mal caísse em sono profundo
e você, Deus,
queimasse a cartilha que te prende ao púlpito
para não ter que santificar o eco que te cerca.

Esse saltério que te embriaga
e os louvores de bocas que se diminuem
com humildade pífia
te sequestram ao repetir:
“Quão grande és Tu”,
que te faz míope.

Fica a dica.

A soberba é a armadilha do caminho estreito.
Não te curves à imagem
que criaste de ti.

Vem brincar de pacificar
o mundo, antes que rasguem
o que ainda nele respira.

Paz, antes que a bênção vire bomba.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 06/09/2026
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