

Divina Comédia. Ato II: Não que eu não queira, discordar
Ainda sem roupa…
E da minha janela, no norte esférico da bússola, eis-me aqui. Direcionando saudades ao sul da origem da minha existência. O céu amanheceu sem cor. O azul sumiu de cima. O tempo de hoje parece estar de luto. Agora, nesse fim de dia, soltei da mão da inércia. Bebido de coragem, entreguei-me às notícias. Além do mar de lama que vitimou os devotos de Buda. Que nó na garganta do mundo, essa espiral sem fundo. Agora compreendo o manto negro no firmamento. O gemido molhado que ele derrama e o choro que ele pintou nas nuvens. Viro a página… E lá segue ele. Praticando das suas. Sequestrando atenções, pra se imortalizar na memória. Me veio à mente Sabotagem: Respeito é pra quem tem… É, mano! Pra ele tanto faz, tanto fez. O amoral, cowboy laranja. O devora-tenras, e eu aqui não me refiro às Brássicas. Figuras clássicas que a escória humana produz. O cúmplice da pandemia. Hipocrisia. Eclesiástia. Modos operand. Seu moço, cale-se. Chega de patifaria. É a sombra que se esconde na claridade da sua tela. Viciante, luzes pulsantes e desafios que ceifam vidas. Pronto! Agora que cozinhei na colher do entendimento, vamos à primeira dose. Para de tremer, papel. Não, são os seus dedos. Por que bailam na testa da monomania? Nessa roda-gigante mental, esse bicho que rói por dentro. Sombra que morde o juízo ao ver a luz dos fatos do agora. Não sou disco riscado tocando sempre a mesma nota. É o cão que late dentro do crânio e não deixa dormir. Esse mundo que tece labirintos e depois vende o fio. Que fabrica noite e me obriga a comprar a vela. Faz dependente meu ímpeto peregrino, que anseia desvendar o oculto das respostas prontas. Quer dizer, fabricam fatos… Traficam acontecimentos. Meu remédio, que, na bula ilegível, faz de conta que alerta. Cuidado: Para uns, inibe a lucidez. A outros como eu, a dependência. Que ironia, Apolo, seu primeiro vício veio justo, justo da flecha de Eros… Te amo, papel, cama com lençol limpo onde meu pensamento te devora. Colo de ninfa sem pegada onde minha voz pode ousar nascer. Espaço onde nada dói. Ainda…
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 10/09/2026
Alterado em 12/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |